O custo dos juros
Se observarmos os custos cobrados atualmente pelos bancos, vamos verificar que mais uma vez está havendo a transferência de recursos do setor produtivo para o financeiro. Já havíamos alertado a população sobre a injeção dos R$ 32 bilhões a título de compulsório na economia brasileira, destinados ao reforço de caixa dos bancos com o objetivo único de injetar mais dinheiro na economia, obrigando, com isto, a baixa dos custos pela lei da oferta e da procura.
Os compulsórios dos depósitos à vista reduzidos de 75% para 45%, e à prazo de 20% para 0%, representaram um incremento de 120% nos meios disponíveis para empréstimos, baseado nas duas carteiras mencionadas.
No entanto, publicação atual do Banco Central menciona que os créditos pessoais estão sendo operados obedecendo custos de 70% ao ano, em média. E os cheques especiais ultrapassam a casa de 150% ao ano. Porém, alguns bancos estão operando com taxas superiores à 200% ao ano. Para que possamos ter uma noção de custo, 9% ao mês é superior a 180% ao ano.
Não adianta o sistema bancário apresentar custos de descontos e duplicatas, obedecendo níveis de 2% a 4% ao mês, ou seja, 26% a 60% ao ano, porque estas operações são restritas ao ótimo cadastro do cedente da duplicata, bem como, ao nível de liquidez do sacado. Além do que, a Central de Risco tanto do cedente quanto do sacado é consultada observando-se o nível de comprometimento financeiro.
Somente para relembrar, esta Central de Risco adentrou em nosso mercado em agosto de 1998, objetivando proporcionar aos bancos informações sobre o endividamento dos tomadores de crédito, visando, com isto, maior liquidez no setor bancário.
Especialistas na matéria afirmam que a Central de Risco bate de frente com o sigilo bancário. Isto porque as portas da empresa endividada ficam escancaradas ao mercado.
Com capitais de giro (operações para pessoa jurídica) e contas garantidas (limites de crédito disponibilizados para saques a descoberto para pessoa jurídica para pessoas físicas estas contas são cheques especiais) beirando custos de 40% a 80% ao ano dentro da rentabilidade proporcionada pela economia brasileira, fica evidente a transferência de renda do setor produtivo para o capitalista financeiro.
O Banco Central, ao invés de divulgar a carteira global dos bancos hoje no patamar de R$ 140 bilhões deveria demonstrar quais eram os saldos das carteiras em agosto de 1999 e o saldo em agosto de 2000; os custos cobrados nas duas datas; o valor do incremento a título de compulsório; a inadimplência nas duas datas; e o que representou para o setor bancário e econômico esta injeção na economia.
Lembrando que, se com os aumentos das operações o governo aumenta os custos tributários referente a elas, estaria o mercado recebendo os benefícios da redução do compulsório? As carteiras baixaram seus custos de acordo com as liberações de recursos?
A pergunta é a seguinte: com custos de cheques especiais entre 150% a 200% ao ano, descontos de duplicatas e contas garantidas de 30% a 80% ao ano, quanto representava o custo médio em agosto de 1999 (antes da liberação do compulsório) e quanto representa em agosto de 2000, posteriormente a esta liberação?
E mais: quais eram os limites das diversas modalidades de crédito? Quais créditos estão mais disponíveis no mercado? Os que possuem custo abaixo de 3 dígitos ou acima destes?
O mercado à mercê do crédito não está conseguindo repassar ao consumidor final os custos, pois a rentabilidade a cada dia diminui e o custo real supera as expectativas.
Esperamos que as próximas divulgações estejam dentro da expectativa de custos, aumentando, com isso, os meios de renda no setor produtivo, objetivando recuperar os espaços até hoje auferidos pelo setor bancário. Quais seriam os custos em setembro de 2000 em todas as carteiras? Quais os benefícios causados pela liberação do compulsório a partir de setembro de 1999? Como detalhe: os custos de captação não ultrapassam 15% ao ano em CDB e o governo manteve a taxa básica em 16,5% ao ano.
- PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro em Londrina
(Excepcionalmente deixamos de publicar hoje a coluna de Delfim Netto)





