Joel Samways Neto
Escrevo no sábado. Daqui a uma semana começa, no Brasil, o último ano eleitoral do século e do milênio. Parece um evento fenomenal, tamanha a titulação; todavia, quanto teremos evoluído, político-partidariamente falando, para merecermos eleições dignas dessa moldura? É aguardar para ver.
Até aqui, quero dizer até o pleito passado, não houve grande diferença do que essencialmente vem acontecendo desde o início de nossa história republicana. É a velha adulação dos pobres e bajulação dos ricos. É o velho esquema de tratar o cidadão como amigo durante a campanha, eleitor na hora do resultado das eleições e contribuinte no dia da posse no cargo. Acredito eu que isso ficou mais radical à medida que os partidos políticos adotaram algumas ciências para incrementar sua luta pelo poder.
Recentemente, ouvindo não sei porquê uma entrevista com um publicitário e consultor de candidatos a cargos eletivos, ele dizia, noutras palavras, que era possível sim retirar algum leite de pedras. Ou seja, é possível fabricar um candidato, desde que o interessado tenha um pouco de boa vontade e disciplina. A fonoaudiologia pode melhorar timbre e dicção, a cirurgia plástica e a cosmética podem rejuvenescer e embelezar, o consultor de moda pode orientar o que veste melhor em cada ocasião, assessores podem fazer pesquisa de campo nas bases eleitorais, e outros assessores, de posse desses dados, podem fazer discursos fantásticos para serem lidos ou decorados, e, finalmente, cinegrafistas podem transformar qualquer coisa em alguma coisa bela, musicalizada, poetizada, atrativa, sedutora, repleta de mensagens para passar nos segundos ou minutos do horário eleitoral, no rádio e TV.
O entrevistado também disse que o cliente-candidato muitas vezes acaba se transformando, assimilando aquilo que era apenas para aparentar ser. Eu diria que é um processo parecido com o da propaganda nazista, construída em cima do princípio de que uma mentira pode se tornar verdade de tanto ser repetida. Quer dizer, de tanto o candidato repetir a arenga que lhe deram para discursar, ele acabaria realmente achando que o discurso vinha dele mesmo. Interessante a capacidade de algumas pessoas acreditarem nisso.
Pois assim como se tem o marketing eleitoral, para o cliente escalar o poder, tem o marketing da perpetuação no cargo, para o cliente, ou seu grupo, perpetuar-se nele. Os candidatos tudo fazem pela popularidade, a fim de se elegerem. Eleitos, tudo farão pela manutenção da popularidade, para se reelegerem ou fazerem seus sucessores. Qual o custo social dessa mentalidade? De cara, pode nos custar a sustentabilidade do governo; e a médio prazo, pode nos custar a democracia.
De repente, decisões urgentes deixam de ser tomadas porque o governante não quer assumir o ônus da impopularidade. Preferem fazer média com a torcida, fazer o gosto de um segmento da sociedade, apesar disso enfraquecer as instituições democráticas, as que nos garantem liberdade e igualdade de oportunidades. Daí, orientados pelo marketing da perpetuação, governantes preferem investir pesadamente o dinheiro público na venda de sua imagem pessoal e de seu governo. Investimento que populariza o governante, mas prejudica o interesse geral, permanente, da sociedade. Conclusão: não se consegue um governo sustentável, que possa atingir as metas de prosperidade social, distributiva, equitativa, para as quais fora eleito, sem desequilibrar o sistema. E logo não conseguirá nem sequer fazer frente a compromissos ligados ao desincumbimento das tarefas mais básicas e elementares (educação, saúde e segurança).
Há reclamações imediatistas que, se fossem atendidas de pronto, de uma canetada só, não se sustentariam e trariam dificuldades muito grandes ao sistema social, político e econômico. Portanto, não podem ser atendidas, ou, pelo menos, não com a rapidez pretendida por seus beneficiários, porque está em questão não o interesse desse ou daquele segmento, mas o interesse geral da Nação. Obviamente, os segmentos que se sentirem atingidos reagirão, farão protestos. O governante, então, passará por momentos muito amargos de impopularidade. Isso não é recomendável pelo marketing de perpetuação, que trabalha para ter resultados rápidos, para melhorar índices de popularidade a cada pesquisa de opinião. Afinal, esse tipo de marketing trabalha para oportunistas, não para estadistas.
Em qual deles votaremos no ano que vem?

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