O custo Brasil invisível
Miguel Ignatios
A inesperada paralisação dos caminhoneiros durante a última semana de julho serviu para colocar em evidência um problema que, em geral, é menosprezado por nossos planejadores oficiais e economistas. Trata-se do custo Brasil invisível, que onera tudo o que é consumido no País e, obviamente, também tudo aquilo que é exportado. É o caso do rodoviarismo, agravado recentemente pelo ‘‘pesadelo’’ dos pedágios nas estradas; da morosidade e do preço exorbitante da movimentação de carga em nossos portos, e do excesso de burocracia fiscal, que, ao contrário do que se imagina, inexplicavelmente, voltou a crescer nesta década.
Para agravar mais as coisas, persiste o velho hábito do governo de deixar as coisas pela metade tão logo o contexto que gerou a necessidade de determinada intervenção oficial se modifique para melhor ou para pior. Isso interrompe ações significativas para o desenvolvimento da Nação. Além dos óbvios prejuízos, tal atitude cria na população a expectativa de que só são concluídos programas, serviços e obras que contêm grande e permanente interesse político.
A sociedade civil brasileira ainda não sabe como se organizar para fazer valer os seus direitos. Ela já identifica o que quer, o que não é pouco, mas desconhece os meios mais eficazes para pressionar o governo (em todos os seus níveis). Não temos no Brasil a tradição e a praxe comunitárias. E a consequência disso é o descompasso alarmante entre o desenvolvimento econométrico e os índices que medem o bem-estar social da população.
Mas voltemos aos custos invisíveis. Mais de 60% de toda a riqueza produzida internamente é transportada em caminhões. Só isso, sem calcular o desperdício de combustível, já é um absurdo, num país de dimensões continentais como o nosso. A inexistência do transporte de cabotagem completa o círculo vicioso e extremamente caro da movimentação de carga. Para se ter idéia do tamanho da irracionalidade, com reflexos no custo de vida, basta lembrarmos que, numa escala de um a dez, a tonelada de carga transportada por caminhão custa oito; por trem cai para quatro e por hidrovia ou cabotagem despenca para um.
Os custos de movimentação de mercadorias em nossos portos relativamente modernos (Santos, Rio de Janeiro, Paranaguá e Vitória, dentre outros) são exatamente o dobro da média dos portos americanos. Não há dados disponíveis em relação a portos europeus e asiáticos, mas, com certeza, se tomarmos como exemplo Rotterdam, na Holanda, um dos mais modernos da Europa, os custos médios brasileiros subirão para, no mínimo, três vezes mais.
E a burocracia? É uma papelada sem fim. São licenças, notas fiscais, certidões, registros, conhecimentos, fretes, seguros, financiamentos, adiantamentos de câmbio; enfim, uma loucura. Até hoje, nenhum economista fez qualquer estudo sério sobre o quanto essa parafernália burocrática encarece nossos produtos nos mercados interno e externo. Há inúmeras exigências a serem cumpridas nas esferas municipal, estadual e federal antes que uma saca de café seja embarcada para Nova York.
Esses custos invisíveis oneram demasiadamente nossas mercadorias, sejam elas destinadas à exportação ou para consumo doméstico. E eles são integralmente repassados para os consumidores daqui e de fora. Não é mera coincidência, portanto, o fato de nossas exportações não terem reagido como se esperava, passados seis meses de desvalorização do real. Nesse período, a cotação média do dólar em relação à nossa moeda manteve-se no patamar de R$ 1,75 por US$ 1, ou seja, tudo aquilo que os exportadores sonhavam antes da desvalorização de janeiro. O que falta para elas decolarem?
Além da necessária continuidade de metas e propósitos, é preciso haver apoio de marketing, agressividade nas vendas ao exterior e conhecimentos de oportunidades de negócios em mercados emergentes. Infelizmente, sobra burocracia, que muitas vezes torna-se obstáculo intransponível para empresas novatas em exportação.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
E-mail: [email protected]

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