O curto-circuito do ministro - Rubem Azevedo Lima
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segunda-feira, 10 de agosto de 1998
Rubem Azevedo Lima 
Os brasileiros preparavam-se para votar eletronicamente sem erro, com as instruções quase perfeitas do TSE sobre máquinas de votação, cuja única falha talvez seja o uso de certos ícones para mostrar como se vota. Isso pode gerar confusão no dia do pleito. Muitos eleitores deverão sentir-se frustrados por não poderem eleger Raul Seixas e outros brasileiros, que, por seus feitos, têm mais força do que as fotos e nomes dos candidatos, nas máquinas de votar.
Deu-se, então, um curto-circuito de comunicação e o presidente do TSE, Ilmar Galvão, admitiu, em entrevista, que a vitória de FHC, no primeiro turno do pleito, ajudaria a Justiça Eleitoral. Disse o ministro que não torce por isso, mas ficou a impressão de que FHC está perto da vitória. Para milhares de eleitores indecisos, que votam para ganhar, como quem joga na loteria, a dica do ministro foi quase a indicação de uma barbada. Ficou, pois, ruim para os adversários de FHC.
Ninguém esperava por essa. Temiam-se, apenas, possíveis irregularidades na totalização de votos nos computadores estaduais, antes da transferência de tais cifras para o TSE. E havia a hipótese de milhões de eleitores votarem, digamos assim, de olhos fechados, ante promessas mirabolantes ou medidas oportunistas de duração efêmera. Aquelas, feitas pelos candidatos do governo e da oposição; estas, de uso exclusivo das candidaturas do situacionismo.
Para estabelecer o mínimo de equilíbrio entre os adversários eleitorais, deve-se, pois, destacar o oportunismo das medidas que o governo vem adotando há um mês, visando à conquista de votos. Em 42 de seus 48 meses de poder, o presidente nunca falou em baixar o preço da gasolina e em retirar tributos sobre automóveis ou energia elétrica. Falou, sim, do turismo de sua cozinheira na Grécia, graças às maravilhas do Plano Real, e aconselhou os brasileiros a fazer check-up de saúde, embora milhares deles morram, diariamente, sem atendimento, nos corredores dos hospitais públicos.
Negam que o desemprego cresça, mas baixam um controvertido pacote para contê-lo. O déficit público sobe R$ 65 bilhões no ano. A fim de fazê-lo parecer menor, mudam a regra de sua apuração, porém rolam milionárias dívidas estaduais. O Sistema Telebrás custou US$ 46,80 bilhões ao país, desde sua criação à posse de FHC, e foi vendido por US$ 22,08 bilhões, a prazo, com ajuda do BNDES, mas a operação foi festejada.
Sucedem-se as denúncias sobre abusos na campanha reeleitoral, que são negadas e não se apuram. O governo garantia que os recursos do Proer eram bancários. A revista IstoÉ apurou que só em parte isso é verdade, tanto que foi de US$ 10 bilhões o rombo do Tesouro com os empréstimos aos bancos.
O escorregão do presidente do TSE, ao fulanizar o pleito, fez muita gente - como a personagem Alice, de Lewis Carrol - sentir-se num país de maravilhas que, a rigor, não existem. Alice, de olhos fechados, percebia coisas assombrosas, mas não se assustava, por saber que todas desapareceriam se abrisse os olhos. Após as eleições, haja ou não favorito, os brasileiros, pelo contrário, devem assustar-se, quando abrirem os olhos para a realidade.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


