Manuel Joaquim R. dos Santos

Cunha não é idôneo. Não é confiável. Não é ético. Não é verdadeiro. Não é responsável no uso do seu cargo. Não é republicano. Cunha não é nada. A não ser, presidente da Câmara dos Deputados! Eleito pelos seus companheiros e mantido pelos mesmos até ao presente momento. Apesar de todas as acusações – algumas provadas (e negadas) –, ele continua capitaneando o Congresso brasileiro. Cunha não foi afastado pelo STF; não foi cassado pelos seus pares; não tinha sido sequer repudiado abertamente pelo Planalto! Cunha é mais do que um sobrevivente da sorte! Ele é um vencedor! Se mente, o faz com tanta classe, que até os mais críticos se surpreendem! A imprensa não lhe dá tréguas, os processos correm contra ele e os emissários do Palácio se sucediam em seu gabinete! O Cunha é o Eduardo das conveniências terceirizadas! Todos têm no Cunha, algo para descontar ou acrescentar. Esse herói da resistência mantém-se de pé, porque a sua sombra refrigera o ambiente que sua baixa estatura moral alcança!
Mas o Cunha se agigantou nos últimos dias. Pela ladeira abaixo da desgraça, empurrado pela Comissão de Ética e pelo que ela pode gerar, o guerreiro do ambíguo e das falsidades, dispara seu arpão na única direção em que seu gancho pode se fixar! Ali, pendurado, sua ampulheta lhe dará uma sobrevida desprezível, mas imprescindível. Cunha sabe o que a maioria dos brasileiros imagina. E embora isso não seja recíproco, o Eduardo pendurado e cada vez mais abandonado, proporciona ao Brasil o start de um processo legítimo e democrático, já em outra ocasião usado!
O Cunha deixa de ser o Cunha do início do artigo! Afinal quem vai querer saber dele, se as pedaladas são reais e concretas? A quem interessa a idoneidade ou não, do que usar de suas prerrogativas para colocar na berlinda o julgamento da presidente? Cunha é agora o presidente da Câmara que no uso de suas atribuições acolheu uma denúncia, fundada e justificada. Derrapando no precipício, ele entrega à nação o início de um processo mais complexo e completo que os desavisados possam imaginar! Dilma será julgada pelas pedaladas fiscais! Mas elas virão bem recheadas e adornadas! Mensalão, Lava Jato, Petrobras, financiamento de campanhas eleitorais, camuflagem pré-eleitoral da real situação econômica do país e mentiras palacianas, pressionarão o prato da balança. O PT, no poder há 13 anos, será julgado no Congresso. Se Dilma cair, o partido que a gerou terá um tombo infinitamente maior!
O PT fará de tudo para inviabilizar o processo ou para garantir a permanência de Dilma. Já o tentou no STF de forma aloprada! Verá, com certeza, que existem mais razões entre o Congresso e o Planalto, ou entre o PMDB e o vice-presidente, que a nossa vã filosofia poderá imaginar! Experimentará o abandono dos que pressentem o perigo e verá seus militantes adestrados reticentes em sair às ruas. Evocará com arrogância os tempos em que confundia ideais esquerdistas com a própria ética e lembrará à nação o risco de se avançar com uma cassação. Buscará apoios religiosos indefinidos e clamará ao mundo sobre o perigo da situação gerar retrocessos democráticos.
Perder o governo sempre significa perder o poder. E, tratando-se do modus operandi denunciado nos últimos anos pelas atitudes do próprio partido, bem como pelo contexto investigatório atualmente na Justiça, é de se crer que por nada se queira abandonar a imunidade protetora!
E o Cunha? Bem, tudo indica que o gancho que o segura precariamente se romperá e ele poderá entrar na história atrás das grades. Como diria meu amigo, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa!

MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina



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