O mundo começa a acordar, finalmente, para a realidade do imenso perigo que o crime organizado representa hoje para toda a sociedade civilizada. Os números a respeito da situação são verdadeiramente apavorantes. O crime organizado recicla US$ 300 milhões por dia provenientes de tráficos ilegais. Só a renda obtida, anualmente, com o tráfico de drogas é equivalente a US$ 400 bilhões, ou seja, 8% da renda total do comércio internacional. Estas são algumas das cifras divulgadas sexta-feira durante o encontro promovido pela ONU e pelo Senado italiano para tratar do crime organizado internacional. O evento, que se realizou em Roma, teve como objetivo recolher as contribuições dos estados-membros para a elaboração de uma convenção da ONU contra o crime organizado, que deverá ser assinada no ano que vem. A intenção é estimular a cooperação entre os vários países e buscar a harmonização das leis, além de promover uma legislação interna mais eficaz.
O italiano Pino Arlacchi, vice-secretário-geral das Nações Unidas e diretor do programa da ONU para o controle das drogas, enfatizou que ‘‘o crime organizado ameaça o mundo de modo cada vez mais eficaz. Ele corrompe a polícia, juízes, políticos e homens de negócios, extorque dinheiro e mata.’’ Sanções eficazes, como confisco de bens provenientes das atividades ilícitas, devem ser introduzidas nas legislações de cada país, na opinião de Arlacchi.
O presidente do Senado italiano, Nicola Mancino, que abriu os trabalhos da Conferência, enfatizou a idéia de que ‘‘diante da globalização do crime, que está assumindo características de holding, usando os sistemas financeiros mais sofisticados, é necessária uma resposta em termos globais’’, completando com a previsão que se isto não acontecer ‘‘o risco é uma derrota da legalidade com consequências incalculáveis para o futuro do mundo’’. Os resultados desse encontro serão apresentados na próxima reunião das Nações Unidas em Viena, de 8 a 17 de março, quando será preparada a convenção para uma colaboração internacional mais efetiva no combate ao crime organizado. A assinatura é prevista para o ano 2000.
É lamentável perceber que, mesmo diante de um problema sério e desafiante como este, ainda existe uma incompreensível burocracia a dificultar que o mundo adote uma posição mais ágil no combate aos criminosos. Os números por si a respeito do montante que o crime organizado movimenta no planeta são assustadores, numa realidade cotidiana que realça a corrupção e a violência, expondo a civilização a uma situação de medo e perigo. O quadro apresentado na conferência de Roma deveria servir como um alerta sobre a gravidade da questão, induzindo desde logo à necessidade de ações mais rápidas.
É certo que a sociedade civilizada não pode agir como os criminosos o fazem. Para os contrabandistas, os traficantes e toda a imensa escória que age criminosamente, não há barreiras morais, éticas ou legais, nem fronteiras. Já os países organizados (e a própria sociedade humana o exige) devem se submeter às leis. Entretanto, é fora de dúvida que a agilização do trabalho visando conseguir normas comuns de atividade policial para facilitar o combate ao crime organizado constitui um imperativo. Não é preciso, nem aceitável, que as autoridades, em qualquer país, usem meios ilegais. É apenas necessário que diante da realidade busquem fórmulas e meios mais rápidos para uma ação conjunta, global, único meio para se enfrentar o desafio da criminalidade mundial.

mockup