Antonio Delfim NettoO crescimento
insustentado
São inegáveis os benefícios recebidos pela sociedade com a estabilização da moeda. Certamente pelo fato de estarem saturados de tantos anos de inflação galopante, os brasileiros enfrentam com paciência exemplar as políticas restritivas ao crescimento da economia, em seguida à euforia de consumo no início do Plano Real. Todos desejavam a estabilidade, acreditando que as restrições ao desenvolvimento eram travessia obrigatória e passageira para um novo período de crescimento sustentado da economia.
Não é esse o rumo que a economia está seguindo. Na realidade, de 1994 até hoje tivemos alguns poucos meses de expansão do Produto, seguidos de longos períodos dominados por políticas restritivas do crescimento. A média anual de expansão do PIB no período ficou em 3% e os avanços e recuos indicam que estamos muito distantes do objetivo do crescimento sustentado. As consequências dessas restrições são terríveis, pois ampliam as dimensões da tragédia do desemprego, reduzem a renda dos salários e aumentam as desigualdades na distribuição da renda nacional.
A estabilidade é condição necessária, mas não suficiente para o crescimento econômico e a melhoria do bem estar social. Já vivemos períodos de desenvolvimento acelerado com relativa estabilidade, com índices de inflação em declínio, com as exportações se expandindo, mesmo quando as condições externas não eram favoráveis como as que estão se verificando desde o início da atual década. O Brasil não soube aproveitar as enormes possibilidades oferecidas às nossas exportações com a liberalização do comércio mundial e com as oportunidades ampliadas de financiamento que hoje vigoram no mercado internacional. Pelo contrário, utilizamos essas facilidades para favorecer as importações, desequilibrando a balança comercial e ampliando irresponsavelmente o endividamento externo.
A estabilidade não é e nunca foi, nem no Brasil nem em qualquer outro país, obstáculo ao crescimento. Aqui, em nome da estabilidade, conseguimos produzir os piores resultados ao insistir na sobrevalorização cambial: atraímos capital externo mediante o pagamento das maiores taxas de juros do universo, deixando nossa economia numa situação de externa vulnerabilidade vis-a-vis o mercado financeiro internacional. Por causa dessa dependência somos tolhidos na nossa capacidade de crescimento. Criamos uma situação absurda: não podemos baixar os juros porque temos que pagar as taxas que os credores externos exigem para continuar nos financiando; o nível das taxas de juros exigidos pelos mercados financeiros mundiais inviabiliza o crescimento da economia brasileira, reduzindo a oferta de emprego, aviltando os salários e piorando a distribuição da renda. Exige ainda que o povo brasileiro suporte uma carga maior de impostos, destinada a cobrir a despesa extra causada pela aceleração da dívida pública em decorrência da elevação dos juros internos!
A posição vulnerável da economia brasileira ficou ainda mais exposta durante a crise nas economias asiáticas, que intranquilizou o mercado financeiro internacional. O que nos obrigou a elevar os juros em novembro de 97 e portanto a reduzir ainda mais o crescimento de nossa economia foi a necessidade de tranquilizar os credores externos. Nossas dificuldades externas não decorrem da necessidade de reduzir a inflação e nem eram inevitáveis num programa de estabilização. Elas têm sua origem no equívoco da política cambial. Enquanto ela não for corrigida, o objetivo do crescimento sustentado estará cada vez mais fora do alcance.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e de Planejamento

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