Duas decisões polêmicas - uma na esfera local e outra de repercussão nacional - carregam na bagagem uma palavra em comum, o corporativismo. A polêmica local nos leva à Câmara de Londrina e à decisão dos vereadores de aumentar o próprio subsídio. Ainda que o reajuste só passe a vigorar em 2013, início da legislatura que será escolhida no pleito de outubro de 2012, os atuais vereadores sabem que o benefício também pode ser pago a eles, numa eventual reeleição. E a maior prova da preocupação com o próprio bolso está no momento em que o aumento foi aprovado - às vésperas de um recesso e o mais longe possível do período eleitoral. Nada impedia que o reajuste fosse aprovado somente no ano que vem, mas antecipar a discussão foi a estratégia encontrada pelo Legislativo - e não só o londrinense, já que há aumentos do tipo em todo País - para aumentar a distância entre a polêmica decisão e as urnas de 2012.
Mas a união em torno de uma estratégia que, em tese, poderia poupá-los das consequências de uma polêmica decisão, não aconteceu apenas entre aqueles que votaram a favor do aumento. Mesmo vereadores que se posicionaram contra a medida preferiram se calar sobre o assunto ao serem questionados pela imprensa. Assim, os vereadores contrários ao aumento de certa forma também se uniram aos seus pares, ao aderir à estratégia de ''amortização'' do tema. Entre quinta-feira e segunda-feira, quando o assunto do aumento salarial começou a circular discretamente na Casa, nenhum vereador chegou a questionar a falta de um debate aberto em torno da proposta, por exemplo.
O curioso é que, na mesma segunda-feira, outra decisão polêmica de repercussão nacional também revelou traços de corporativismos. Se antecipando a uma discussão que seria feita apenas no ano que vem, o ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal (STF), acatou liminar da Associação dos Magistrados Brasileiros para suspender investigações contra magistrados em andamento no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão que foi criado justamente para que se pudesse fazer a identificação dos maus pares, até então às vezes protegidos pelas corregedorias dos tribunais de Justiça locais.
O caso ainda será analisado também pelos demais ministros do STF, mas a próxima sessão da corte ocorrerá apenas em fevereiro. Tradicionalmente avesso a olhares externos, o Poder Judiciário perde com a redução do papel do CNJ, e a sociedade também. Ganha o corporativismo.

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