O mundo vem passando por numerosas transformações importantes: atentados terroristas, doutrina Bush, o PT no governo, epidemia da SARS... Entretanto, o tópico mais frequente nas conversas brasileiras certamente é ''a última que a Heloísa aprontou com o Sérgio'' ou ''o beijo da Helena e do Dr. César''.
A maior prova disso é a ausência dos sobrenomes na referência logo acima. Esses personagens televisivos são tão íntimos do público que é possível dispensar as formalidades quando se fala deles, o que já não acontece quando se fala das mais recentes decisões tomadas por Antônio. O Palocci, ministro da Economia.
A relação entre a população brasileira e a televisão iniciou ainda durante a década de 60, quando as primeiras televisões chegaram ao Brasil (provenientes dos EUA, claro), todavia só se fortificou quando os preços caíram e esse eletrodoméstico se espargiu por toda a nação.
Sendo o meio de comunicação em massa mais difundido no país, a televisão tem uma relevância incomensurável na educação e na formação de crianças. Isso não costumava ser um problema quando o nível da programação era alto. As gerações criadas assistindo ao ''Sítio do Pica-pau Amarelo'' e ao ''Castelo Rá-tim-bum'' seguramente têm valores diversos da atual que assiste essencialmente a desenhos japoneses cujos personagens têm como único intuito vencer uma batalha entre monstros.
A televisão também dita moda no Brasil, decreta o que é legal, quem é respeitável, quem deve ser punido, implica o sucesso ou o fracasso dos candidatos a cargos políticos. Justamente por causa dessa autoridade, teve e ainda tem um papel considerável na história do nosso país. Através dela e por causa da sua influência presidentes foram eleitos e depostos, a verdade foi escondida ou revelada.
Um dos axiomas do século XX ''Você é o que você lê'', no caso do brasileiro poderia muito bem ser alterado para ''Você é o que você vê''. Juntando-se a precariedade das bibliotecas municipais (quando essas existem) com a alta taxa de analfabetismo da nação, só resta como fonte de cultura a essa parcela da população a televisão.
Sabendo-se da projeção da tevê na vida dos brasileiros, as redes deveriam se preocupar em elevar a qualidade da programação, para formar uma opinião coletiva mais vinculada com a realidade. Os livros podem ter um papel de coadjuvante na vida do brasileiro comum, contudo um fato é inegável: um Manoel Carlos nunca será um Machado de Assis.
SAMANTHA SCHPALLIR CALIJURI é estudante em Londrina

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