Quando se fala em educação no Brasil, muitos são os aspectos considerados lastimáveis: seja a remuneração dos professores, o rendimento dos alunos, seu interesse pela escola, as políticas governamentais, a questão do respeito entre estudantes e dos mesmos com os docentes. O editorial da FOLHA do último dia 1º aponta para a problemática do bullying, e, como qualquer discussão que se pretenda no Brasil, nada mais faz do que apontar culpados.

Seja o professor, seja a equipe diretiva, seja o colégio enquanto instituição, todos parecem poder sentar no banco dos réus, já que não somos capazes de evitar ou ao menos tentar coibir as mútuas agressões entre estudantes. Mas, partindo de outro ponto de vista, pergunto: há culpados?

Podemos atribuir esta falta ao aluno, por humilhar seus semelhantes dentro da sala de aula? Muito provavelmente não, uma vez que, sendo jovem, o que está sendo formado no mesmo é o caráter e a personalidade, e estes, deixados correr livres, vão no sentido da agressão e da destruição. Para reprimir estes impulsos, formou-se uma civilização.

Seria, desta forma, culpa dos professores? Estes profissionais saíram de instituições de terceiro grau nas quais a grande ênfase não se dá no sentido de formar para o ensinar, mas sim no formar para pesquisar. As licenciaturas brasileiras sofrem de uma carência imensa no sentido do fazer pedagógico, o qual é aprendido empiricamente. Muitas vezes, as disciplinas de ''metodologia de ensino'' limitam-se à discussão de textos técnicos de ''grandes'' pensadores, os quais dizem o que se deve fazer, mas o aprendizado para nesse ponto. A própria universidade está em um momento de senilidade no que diz respeito à formação de professores nos cursos de licenciatura, e a reforma não se deve dar no número de aulas a serem vistas pelo graduando, mas sim na própria atualização do professor universitário.

Encontramos a causa do bullying na equipe diretiva ou no colégio enquanto instituição? Difícil é fazer tal afirmação, uma vez que as escolas, embora respondam a determinações mercadológicas, existem pois possuem uma ideia: a da divulgação da educação em seus mais altos objetivos, não apenas formando profissionais, mas sim seres humanos. Se não é para isso, não há porque existir escola.

Desta forma, chegamos em um ponto crucial: o papel dos pais. Há muito, percebemos que, em virtude de uma vida cada vez mais atribulada, com maiores e mais difíceis exigências, os pais acabam deixando a questão da educação a cargo da escola, tomando assim o professor o papel de ''educador'', aquele que deve prover a educação que, em outros tempos, recebia-se em casa. Mas há, também, uma cobrança dos professores para que cumpram o conteúdo predeterminado e que forneçam a formação necessária para a aprovação no vestibular. Os pais, no afã de prover seus filhos de recursos e de tudo aquilo que o dinheiro pode comprar, muitas vezes esquecem-se de fornecer aquilo que, gratuitamente, é mais importante: atenção.

O bullying é uma prática destrutiva, mas antes de tudo remete a uma realidade mais profunda: a do deficiente afetivo. Mostra a vivência de um aluno que, em verdade, não buscar humilhar o seu colega por puro prazer. O bullying apresenta-se mais como um meio, não como um fim. É o sentido da autoafirmação, da procura da superioridade, mesmo que isso custe a destruição emocional de seus colegas. E a situação se fortalece, na maioria das vezes, pela deficiência afetiva que se encontra no lar. Os filhos acabam tornando-se produtos, nos quais se investe tempo e dinheiro e dos quais se espera um retorno, com a aprovação no vestibular e a construção de uma carreira.

Infelizmente, estamos vivendo uma situação na qual os pais deixam, por contingências diversas, de serem pais, e os filhos abandonam o papel de filhos. E nesta luta, há um equívoco em se atribuir aos professores, à escola e aos estudos o papel de culpados ou coniventes com diversas situações de conflito no ambiente escolar. Há de se rever, sempre, metodologias e objetivos de educação, mas esta deve ser tomada em seu contexto amplo.

LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina

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