Cada vez com mais frequência destacados educadores fazem críticas ao conteúdo do ensino, no Brasil, e na última sexta-feira quem se manifestou, em entrevista à Folha da Sexta, foi o professor, escritor, psicólogo-clínico e terapeuta Ivan Capelatto. Autor de vários livros, entre eles ''Diálogo da Afetividade - o Nosso Lugar de Cuidar'', ele condena a expectativa dos pais de que a escola ensine os filhos a competir no mercado de trabalho e a conquistar bens materiais. Nessa corrida - ele diz - os alunos estão deixando de aprender algo básico das relações humanas: a afetividade.
O ensino da competitividade não ocorre apenas nos níveis elementares mas também nos graus superiores e nas instituições e cursos que formam ou treinam executivos e profissionais das mais diferentes áreas. E cada vez mais essa metodologia recebe críticas, porque - segundo as diversas opiniões - gera uma civilização de concorrentes nas atividades afins. Plasma-se então uma sociedade sem afeto, podendo trazer consequências sérias, como alerta o educador ora entrevistado. Não é comum os pedagogos se aprofundarem em questões como o amor, porque eles são fundamentalmente metódicos, mas o professor Capelatto alerta que ''o medo, hoje, ficou maior que o amor e tornou as pessoas mais agressivas com o ser amado''.
As gerações do presente se tornaram céticas - ele diz - e o amor passou a ter importância secundária. Isto envolveu a família, com os pais se separando com facilidade; envolveu as instituições; envolveu a igreja. A posição desse especialista é que a escola é ainda ''a única instituição que pode ajudar os pais a cuidarem dos filhos'', mas naturalmente - a concluir-se de sua crítica inicial - terá de abandonar a metodologia de incentivar a competitividade.
Tem sido consenso que os três pilares de formação do indivíduo residem na família, na escola e na igreja, mas Capelatto diz que a família terceirizou a escola como instituição encarregada de cuidar dos filhos, e um outro educador - também em entrevista recente a este Jornal - disse que a família ''despeja os filhos'' na escola e espera que ela resolva tudo. E a igreja, como instituição, ao que se sabe dedica-se mais ao culto da própria religião, cuidando menos de educar seus fiéis adolescentes para a solidariedade e para viver em harmonia no meio social. O pedagogo e economista Hermas de Melo declarou recentemente à FOLHA que ''o livro didático incentiva a individualidade e o propósito de ganhar dinheiro''. Postura semelhante têm outros luminares da área.
O conteúdo do ensino está sob julgamento, com críticas não apenas ao que se ensina mas, implicitamente, ao que se deixa de ensinar - como a cultura da afetividade, enfocada pelo professor Capelatto, e o ensino às crianças de competir menos e a partilhar mais. Estes, entre tantos, são ingredientes apontados para ser criar uma sociedade mais solidária e mais sadia.

mockup