O contato que virou tragédia
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sábado, 01 de março de 2003
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba Quase três anos depois do acidente que provocou o vazamento de 4 milhões de litros de óleo da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, as consequências do caso ainda geram polêmica. Dois trabalhadores que integraram a equipe de pessoas chamadas às pressas para retirar o óleo do Rio Iguaçu, atingido pelo vazamento, acusam a Petrobras de negligência.
Juracir Ferreira da Silva, de 33 anos, e José Marcondes Portela da Luz, de 43, começaram a ter sintomas atribuídos à intoxicação por óleo na semana em que trabalhavam na limpeza do rio. Dias depois, ficaram paralíticos. Até hoje não recebem auxílio da empresa, que refuta a possibilidade da doença dos dois ter sido consequência do contato com o óleo. O acidente aconteceu no dia 16 de julho de 2000, contaminando os rios Iguaçu e Barigui em uma extensão de 40 quilômetros a partir da refinaria.
O vendedor José Marcondes estava desempregado à época do acidente e ficou sabendo por um parente que a empresa estava cadastrando pessoas para a limpeza dos rios. Trabalhou durante nove dias pelo salário de R$ 20,00 por dia durante a semana e R$ 25,00 no final de semana. ''Hoje me arrependo. Se fosse começar tudo de novo, recusaria o trabalho'', lamenta.
Com 40 anos na época, Marcondes disse nunca ter tido problemas de saúde. ''Mas depois de ter contato com o óleo, comecei a ter dores de cabeça e dificuldade para urinar e evacuar. Três dias depois de terminar o trabalho, não senti mais o movimento das pernas'', conta. Marcondes diz que os sintomas aconteceram ''de um dia para o outro''. ''Acordei e estava paralítico.''
Hoje, ele recebe auxílio-doença de um salário mínimo, obtido com apoio do Sindicato dos Petroleiros. O que é insuficiente, segundo observa, para sustentar os três filhos, já que tem despesas com tratamento e não pode trabalhar. Da Petrobras afirma não receber nenhuma ajuda. ''Eu queria Justiça, estava acostumado a trabalhar e agora estou nessa situação, sem poder me movimentar.''
Situação semelhante é vivida por Juracir Ferreira da Silva, de 33 anos. Ele foi contratado como auxiliar de serviços gerais por uma empresa terceirizada para trabalhar na limpeza do rio. ''Nós recolhíamos óleo com balde e também retirávamos entulhos da margem do rio'', lembra. O trabalho, segundo conta, era realizado com as roupas dos próprios empregados. ''Não ganhamos máscaras, nem luvas ou botas. Trabalhávamos com a roupa do corpo. Nos últimos dias ganhamos uma capa por causa da chuva, mas ela rasgava por que era muito fina'', relata.
Silva diz que chegou a trabalhar 24 horas ininterruptas. ''Eu saía de lá com muita dor de cabeça. Fui atendido pelos médicos, mas eles disseram que era uma gripe forte por causa do tempo ruim.'' Os sintomas foram semelhantes ao de José Marcondes. Depois de alguns dias, com dificuldade para respirar, evacuar e urinar, Silva foi perdendo os movimentos das pernas. Hoje depende de cadeira de rodas para se locomover e utiliza uma bolsa para garantir a eliminação de líquido e fezes.
Silva e Marcondes tentam entrar com uma ação pedindo indenização da Petrobras, mas esbarram na burocracia para obter laudo médico atribuindo a doença à intoxicação por óleo. ''Eu não posso esperar a lentidão da Justiça, queria de volta a dignidade de poder criar meus filhos'', diz Silva.


