A agência paulista da Grottera está divulgando o resultado de um importante trabalho de pesquisa que realizou durante o mês de setembro de 97, sobre o perfil do consumidor negro no Brasil.
A pesquisa é abrangente e foi feita a partir de 1500 questionários preenchidos por representantes do segmento ‘‘não-branco’’ da população: negros e ‘‘pardos’’ de acordo com as classificações em vigor das instituições oficiais com o IBGE. Embora esse enfoque distorça ligeiramente os dados, pois inclui os descendentes das raças nativas do país - os ‘‘índios’’, caboclos, etc. - as grandes tendências constatadas não são afetadas, visto que é reduzida a participação desses segmentos na etnia brasileira.
De acordo com as conclusões da agência - registradas no seu relatório - ‘‘negros e pardos formam uma população de 51 milhões na área urbana e têm necessidades específicas, têm dinheiro, têm sonhos de consumo. Só não têm atenção das empresas brasileiras.’
O diretor da empresa, Luis Grottera é ainda mais contundente: ‘‘os números e as análises expostos nesse relatório confirmam que, do ponto de vista de negócios, ignorar o negro não é uma questão de preconceito. É burrice’’.
De fato, alguns números da Grottera chegam a surpreender. Somando as cifras para negros pardos, o Brasil - com 68,7 milhões - seria a maior nação ‘‘mestiça’’ do mundo, à frente do Zaire (45,3 milhões), da África do Sul (35 milhões) e dos Estados Unidos (34 milhões). Mesmo considerando apenas a população genuinamente negra, os 7,5 milhões de negros brasileiros colocariam o Brasil entre os principais países negros do mundo, pouco abaixo da Nigéria (9,5 milhões).
Mas a pesquisa da Grottera é sobre as características sociodemográficas e consumo de classe média negra, no Brasil - acredito que o primeiro estudo de mercado feitos especificamente sobre este assunto. Nesse sentido, a classe média negra brasileira, com uma renda familiar média mensal de R$ 2.300 por mês, é equivalente à totalidade da população de um país como Portugal. São 7 milhões de habitantes, 1,7 milhões de famílias, com alto nível de escolaridade: 45% colegial completo e 34% superior completo.
O negro brasileiro da classe média tem aspirações parecidas com os brasileiros de origem européia: 54% querem ganhar mais dinheiro, 44 % abrir seu próprio negócio, 43% comprar ou trocar de carro, 39% viajar e 29% adquirir casa própria. Mesmo as aspirações de consumo desse segmento não são tão diferentes assim dos padrões ‘‘brancos’’. O fato de 36% desejarem sabonetes especiais; 21% tecidos e moda afro; 27% comida/temperos afro ou maquiagem (22%) não chegam a constituir uma aberração, em termos de mercado. Acho mesmo que uma parte dessas aspirações poderá revelar-se fantasiosa, como sempre acontece com as pesquisas de intenções de compra, se uma empresa de primeira linha decidir um teste de mercado para valer.
Mais importante é a constatação numérica de que o segmento negro de classe média da população brasileira representa um renda anual de R$ 46 bilhões - com cerca de R$ 6 bilhões de excedente às necessidades básicas. Sob qualquer ângulo, são números respeitáveis.
Há quase 10 anos, escrevi um artigo para o Jornal do Brasil, questionando a tese - defendida na ocasião por alguns publicitários - de que os negros apareciam pouco na propaganda brasileira porque não eram importantes como consumidores. A pesquisa da Grottera vem confirmar o que então denunciei: que, entre outros fatores, o desconhecimento e a ignorância sobre o potencial de mercado que representam os brasileiros da raça negra escondem, de fato, racismo e preconceito, puro e simples. Que a maioria da sociedade ainda prefere fingir que não existe.

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