O consórcio do lixo e o lixo do consórcio
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de novembro de 2001
Rasca Rodrigues 
Há pouco mais de doze anos, Curitiba foi surpreendida com ''O Lixo que não é Lixo'', inusitado programa de separação de lixo doméstico, que se tornou conhecido por meio de uma massiva campanha de divulgação. Tímida no início, a adesão aumentou conforme se despertava a consciência dos contribuintes, ávidos para serem elevados à condição de cidadãos ecologicamente corretos, de acordo com o discurso vitorioso do processo eleitoral da época. Até uma folhinha verde foi sobreposta ao nome de nossa cidade.
A peso de ouro, no entanto, como sofistas de aluguel, aqueles administradores públicos criaram uma política de mídia extremamente persuasiva, que desviou por muitos anos a atenção frente aos problemas estruturais da cidade. Mentiram descaradamente mas alcançaram o objetivo ao se sustentarem, ao longo de todos esses anos, mesmo praticando negociatas vis no comando político da prefeitura e, depois, no governo estadual. Assim, feitos Midas ao avesso, exterminaram as políticas públicas que promoviam desenvolvimento humano, econômico e social.
Desde então, a população aderiu à reciclagem do lixo colocando-o, em dias pré-determinados, na frente de suas casas para ser recolhido. Crescia, em proporção não desprezível, a quantidade de pessoas atraídas ao paraíso curitibano da prosperidade, estampado por uma bela e cara miragem no marketing político oficial.
Abrigaram-se, sobretudo, nos vazios da periferia. Amontoados em barracos e resignados ante a decepção, sujeitaram-se a recolher restos para se manterem vivos. Foi quando surgiu um novo Nero, comandante de noites festeiras que, misericordioso, viu na peregrinação penitencial em busca de lixo pelas ruas da cidade mais uma forma de exploração mercadológica.
Passou a incentivar a atividade de coleta do lixo reciclável com programas de troca, ora por restos vegetais do Ceasa, ora por vale-transporte. Desse modo, cresceu o número de excluídos e dependentes, de intermediários oportunistas e das primeiras centenas de empresas de transformação do produto coletado.
Sozinhos, abandonados e usados, os trabalhadores dos carrinhos de papel ficaram à mercê da própria sorte. Além de terem que se haver com a indiferença da administração pública, convivem com algozes ainda piores: os atravessadores. Donos de grandes depósitos de lixo e miserabilidade, são exploradores dos desvalidos, escravizando-os mais que a dependência sofrida pelas prostitutas no bordel.
Doze anos depois, Curitiba contabiliza mais de 13 mil catadores de lixo. Contando com a Região Metropolitana, são 72 mil pessoas marginalizadas, que não têm reconhecida a sua ocupação econômica, mas dependem desta atividade. Orgulhosos, exibem o feito de arrastar em seus carrinhos até 600 quilos, competindo com animais de tração.
Em discussão com os municípios da Região Metropolitana de Curitiba, o Consórcio Metropolitano de Lixo coloca agora em risco os que acreditaram na política de reciclagem, incentivada pelos governos da capital e região, a partir da folhinha verde como marca de gestão municipal.
Questionados sobre esta consequência iminente, alegam que oportunizar melhores condições de remuneração, ao criar centros públicos de reciclagem de lixo; de tráfego, ao oferecer carrinhos adequados às normas de trânsito; e de trabalho, ao oferecer equipamentos de proteção individual, será estimular a adesão de mais desesperados à coleta.
Trata-se de uma negativa fascista da elite governante, assistida por convertidos de esquerda que, para obedecerem à cartilha neoliberal, preferem varrer para debaixo de seus tapetes a sujeira por eles mesmos criada.
A teoria do Estado Mínimo sofre questionamentos pelo resultado nefasto causado porque não coloca o homem como sujeito da história, abandonando-o e tirando-lhe a dignidade. Além disso, nem é preciso recorrer à antropologia, à sociologia ou à filosofia para entender que somente um ser humano em estado terminal de cidadania é capaz de buscar, nessa atividade cruel, insalubre e fatal, seu sustento.
Então, cabe aos atuais governantes a responsabilidade de garantir a sustentabilidade econômica e social dessa gente desesperada, até que alcance o paraíso prometido pelos arautos de aluguel, vendido e cantado em verso e prosa a todos os cantos do Paraná e do Brasil. Se não, o modelo proposto pelo consórcio metropolitano de lixo coletará, para o aterro do inferno globalizante, um exército de seres humanos ensacados na embalagem mais cruel de suas vidas: a traição.
- RASCA RODRIGUES é agrônomo, diretor do Sindicato dos Engenheiros no Paraná (Senge-PR), diretor da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) e diretor do Meio Ambiente da Prefeitura de Pinhais


