Há uma pergunta instigante no ar: o conde Lula tem mais condições de ganhar o pleito de 2002 do que o operário Lula? O Lula de paletó bem alinhado, barba aparada, gravata da moda, discurso amaciado, sorridente e amável, tem mais chances do que o metalúrgico brabo recitando imprecações contra o governo na porta de fábricas? Para muitos, a resposta sim será a consagração do marketing e da engenharia cosmética que embala perfis humanos como se fossem sabonetes.
Trata-se de um grave erro de avaliação. Quem ganha uma campanha é o candidato, com sua identidade, soma do caráter, discurso e história. O marketing ajuda a potencializar as qualidades de um candidato. A adição de algo superficial num perfil funciona como um órgão estranho, que, a semelhança de um transplante, pode ser rejeitado. E a rejeição é feita pelo eleitor, não pelo corpo transplantado.
Lula só ganhará com sua identidade e posições. Não significa que deve ser inflexível. Só os imbecis não mudam, porque já nascem com defeitos, ensina Ortega y Gasset. Lula, portanto, pode e até deve mudar, incorporando novos conhecimentos, fazendo uma reavaliação da realidade, fazendo mea-culpa, aceitando, enfim, as regras do nosso sistema democrático e os eixos básicos do programa econômico que garante ao País a estabilidade e o respeito internacional.
Ele só não pode mudar de araque, ou seja, maquinar uma mudança de comportamento e discurso para engabelar o eleitor. Se isso ocorrer, o cidadão perceberá e dará o troco no momento certo. Um timoneiro que se preze, diz Sêneca, continua a navegar mesmo com a vela despedaçada. A coerência é um dos principais suportes do caráter de um político. Com ela, poderá atravessar mares tumultuados.
Ademais, é preciso ter muito cuidado com o chamado marketing mcdonaldiano, que coloca o mesmo molho no mesmo tipo de sanduíche, em todas as regiões. A diferenciação faz a força de uma candidatura. A exuberante cosmética televisiva está mais que saturada. Jânio Quadros ganhou de Fernando Henrique a campanha para prefeito de São Paulo, em 1988, dentro de um estúdio despojado, na TV Record, ao lado da mulher doente, Eloá. Cabelos desarrumados, olhos esbugalhados, gesticulação tresloucada, palavras gritadas, fraseologia esquisita, fazia o discurso da autoridade, disciplina, combate à violência e ao desemprego. E o nosso presidente, naquela época, charmoso e didático, fazia o protótipo de todos os programas eleitorais. Na periferia, entre linhas de metrô, Fernando Henrique mostrava que conhecia a cidade e seu povo. Sentou na cadeira de prefeito antes do resultado final da apuração, aquela que Jânio desinfetou no primeiro dia da administração.
Mas a resposta sobre uma eventual vitória de Lula não depende apenas de fatores endógenos, internos, como podem pensar os esteticistas de plantão do PT. Os fatores exógenos darão a resposta. A taxa de satisfação ou insatisfação social - ou o que costumo dizer o PIBinf, o Produto Interno Bruto da Infelicidade - dará a resposta. Se a taxa for alta, Lula tem grandes condições de ganhar no segundo turno. Se for baixa, significa que a crise estará bem administrada: o índice de satisfação social se expandirá, o apagão deixará de ser ameaça, tudo sob as bênçãos das águas de São Pedro. Nessa moldura, o discurso, o programa para o País, as posições, as ênfases e abordagens, estabelecerão as diferenças entre os candidatos.
O que se pode garantir, desde já, é o crescimento da racionalidade dos cidadãos para avaliar programas inviáveis, promessas não cumpridas, discursos que soam falsos, alianças espúrias, ameaças de ruptura abrupta no modelo econômico adotado. Os perfis serão passados a limpo. Quem tiver contas a pagar, é melhor antecipar a fatura. Se deixar para a campanha, serão flagrados e rejeitados. Pode-se, ainda, conferir a tendência dos cidadãos para rejeitar pratos feitos. Os índices de intenção de voto, hoje detectados, podem não ser os mesmos de outubro de 2002 e é bem provável que não sejam. As pesquisas mostram que 54% não votarão em nenhum dos candidatos que hoje se apresentam, o que denota a rejeição à atual configuração de candidaturas. Portanto, há um imenso buraco no meio da sociedade, que comporta uma candidatura asséptica, de grande respeitabilidade, que transmita os valores do equilíbrio, experiência, dignidade pessoal, conhecimento da realidade nacional.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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