O Conde de Abranhos
Ramalho Ortigão, em uma das suas inúmeras cartas a Eça de Queirós, descrevia as atividades de um político sem ética que estava aprontando das suas. Eça, que morava em Londres, respondeu maravilhado: Quer dizer que o Conde de Abranhos existe. O Conde de Abranhos é um dos romancetes mais deliciosos do velho Eça e conta a história de uma figura torpe, execrável, hedionda que circulava pela corte portuguesa. Uma daquelas pessoas que não medem esforços para conseguir seus objetivos, através de vilanias incomensuráveis. A história do conde que virou ministro da Marinha sem nunca ter entrado em um bote é contada por seu secretário, outro arquétipo do puxa-saquismo, do servilismo, do mau-caratismo.
Os políticos brasileiros não têm estofo para personagens de romance. Nem mesmo para ser matéria de uma boa biografia, como Stefan Zweig fez com Joseph Fouché, um perfeito canalha. Segundo Moacir Werneck de Castro, o responsável pela escolha de Zweig foi Balzac, que considerou Fouché o personagem mais interessante do século. Um homem que participou de vários regimes na França e traiu a todos da monarquia ao Terror. Ainda de acordo com Werneck de Castro, chamaram-no de traidor nato, intrigante sórdido, desertor miserável, alma pequena de traidor. Enfim, uma figura fascinante.
Nestes tempos que correm, de apagão e de crise política, nem mesmo os áulicos têm o charme do secretário do conde de Abranhos. São figuras simples, que esbravejam como cães bem treinados se o dono é atacado, mas não passam disso. Nasceram para ficar em segundo plano e, assim, ficarão até o final, quando não restar mais nada. Pessoas dotadas de um flexibilidade vertebral incomensurável. Qualidade sempre utilizada para os exercícios de contorcionismo a que são submetidos para justificar o que é, normalmente, injustificável.
Como o ex-ministro, maior apologista do que ele chamava de reforma do Estado, que incluía botar no olho da rua milhares de funcionários públicos indiscriminadamente e promover a privatização selvagem. As habilidades do ex-ministro no ramo do malabarismo são mesmo inauditas. Não é que ele sai com um artigo no jornal da última semana defendendo o congelamento das privatizações e pregando um novo modelo para o sistema energético brasileiro?
É verdade que ele se considerava amigo de Fernando Henrique. Mas foi despedido. Queria ficar de qualquer jeito nas bordas do governo. Mas não foi reaproveitado. Será que ficou melindrado? Bobagem. Esse tipo de gente nunca tem melindres. E se for chamado mais uma vez para servir, não há dúvida, aceita no ato.
Talvez esteja aí um dos maiores erros dos governantes: entregar posições estratégicas a esse grupo. Não dá certo. Nunca deu certo, porque as decisões que eles tomarão vão influir nas pessoas que vivem na terra enquanto eles estão no mundo da lua.
Por isso os leitores de jornal, os ouvintes de rádio, os espectadores de televisão estão expostos a ver, ouvir e ver situações estapafúrdias como a do secretário de Transportes do Estado de São Paulo declarar que só rico usa estradas. Uma coleção de bobagens antológicas que ficou enriquecida ainda mais depois da crise de energia. Coisas do tipo: Quem vencer na Justiça vai ganhar de presente o apagão, de David Zylbersztajn, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e conhecido carinhosamente como O Genro. Ou ainda: Vamos pôr banda na porta do cara e cortar a luz, de Mauro Arce, membro da comissão do apagão e secretário de Energia de São Paulo.
Os filhotes da prepotência vão em frente sem nenhuma preocupação com o tormento das pessoas que andam de ônibus, tomam banho em chuveiro elétrico porque precisam chegar limpinhos no serviço ou precisam guardar remédios na geladeira. Mas políticos bajuladores e tecnocratas bajuladores se merecem, completam-se.
Dificuldades de relacionamento só acontecem em situações-limite. Como a que nós estamos vivendo agora, com a crise de energia. Aí um quer botar a culpa no outro. Mas não tem importância. A população sabe que todos são culpados. E que tudo é mentira.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





