O comunismo devia cair, mas não para isto - Santiago Carrillo
Santiago Carrillo
Foram completados recentemente os dez anos do falecimento de Dolores Ibárruri, a Pasionaria, espanhola que foi uma das figuras sobressalentes do século XX. Coincidindo com a data, caía o Muro de Berlim. Nós que conhecemos seu pensamento íntimo, sabemos que esse muro sempre provocou suas reservas, ainda que tenha sido aconselhada a não expressar publicamente seus sentimentos pela URSS, desde a revolução de 1917.
O Muro de Berlim devia cair. Era a demonstração de que o socialismo real não chegou a ser o socialismo que pensaram Marx, Engels e até mesmo Lenin. Um sistema que se encerrava, ele próprio, em um gueto, estava condenado; na competição com o Ocidente capitalista havia sido derrotado, não havia demonstrado sua superioridade.
Contudo, sua queda também não demonstrou que o sistema capitalista seja capaz de resolver os problemas que a humanidade enfrenta hoje. Com notável precipitação, políticos e publicitários se lançaram a proclamar o fim da guerra fria, o que não é mais que uma meia verdade. Pareceu que desaparecia a possibilidade de um enfrentamento militar entre o bloco capitalista e o que se denominava o bloco comunista.
Essa possibilidade estava então congelada pela convicção de ambos os lados de que uma guerra entre eles, considerando a existência da arma nuclear, significaria a autodestruição dos dois. Inclusive nos últimos anos, ambos os blocos tinham começado um processo que conduzia ao desarmamento nuclear, despertando amplas esperanças de paz.
Mas a queda do muro e com ele, do sistema soviético, veio interromper esse processo que poderia realmente pôr fim à Guerra Fria. Agora se fala do fim desta só porque desapareceu um dos blocos ideológicos do mundo. Não obstante, estamos na presença de um fenômeno que nos leva a pensar que por baixo das razões ideológicas havia um substrato geoestratégico que começou a subir à superfície após o desaparecimento daquelas.
Como explicar, senão, a política ocidental para a Rússia capitalista atual? Elementos característicos dessa política são, em primeiro termo, a forma brutal com a qual os organismos financeiros do capitalismo internacional intervieram na transição russa.
À ação do FMI deu fé seu diretor, Michel Camdessus, reconhecendo: Não vimos que o desmantelamento do aparato comunista era o desmantelamento do Estado. Contribuímos para criar um deserto institucional. A dúvida razoável é se na verdade não viram ou se não os interessava vê-lo, porque não se tratava só de destruir um mito ideológico, mas sim de pôr fim à existência da Rússia como segunda potência mundial, nociva concorrente da primeira, os EUA, que é, na verdade, a que decide no FMI.
Esta dúvida toma mais corpo se for observada a ampliação da Otan. Ante esta, a pergunta adequada é que razão existe para manter e ampliar uma aliança militar que nasceu com fins defensivos frente ao perigo soviético, quando desaparecido este e se proclama o fim da Guerra Fria? Um dado que preocupa razoavelmente os russos é que a ampliação leva os limites da Aliança Atlântica, precisamente, até as próprias fronteiras da Rússia.
Sabe-se que o ex-secretário da Otan, Javier Solana, falou muito da reorganização deste organismo militar como se fosse tornar-se um instrumento pacífico. Mas o primeiro passo dado na nova circunstância foi a guerra contra a Iugoslávia, com um pretexto humanitário. E a casualidade de que a Iugoslávia é um povoado eslavo, aliado historicamente da Rússia, deu a muitos a idéia de que o objetivo real era expulsar dos Bálcãs a influência russa.
O que se pode esperar de tão alardeada reorganização e do novo papel da Otan deu testemunho a festa de aniversário deste organismo nos EUA na qual se reivindicou o direito a intervir militarmente em qualquer país quando a Otan o considerar necessário, prescindindo da ONU, que já foi menosprezada antes.
Atualmente se desenvolve outra guerra na Chechênia, na qual estão intervindo tropas russas, aparentemente para combater o terrorismo. Analistas atribuem este conflito à vontade de Boris Yeltsin de melhorar as expectativas eleitorais de seu candidato à sucessão. Por outro lado, chefes militares deste país acusam os EUA de fazer intriga para debilitar a Rússia no Cáucaso e na Ásia Central.
E como já vimos os norte-americanos armarem os fundamentalistas islâmicos contra a URSS na absurda guerra do Afeganistão e como os interesses geoestratégicos não reconhecem moral nem se detêm ante contradições incompreensíveis para o cidadão simples, não resolvemos descartar nem a primeira nem a segunda hipótese que, por outro lado, não excluem uma à outra.
O que parece certo é que o fim do bloco comunista e a queda do Muro de Berlim não fizeram avançar a paz significativamente. Ao contrário, os EUA continuam se rearmando; ressuscitaram o projeto de Reagan sobre a Guerra nas Estrelas, rasgando assim o Pacto ABN, da marcha para o processo de desarmamento nuclear iniciado há alguns anos e provoca na Rússia apreensões.
A isto teria que ser unido o afundamento da economia russa que, segundo um informe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, lançou à pobreza mais de 100 milhões de pessoas; destruiu os serviços de saúde e educação; provocou a queda abrupta da média de vida; o incremento da taxa de mortalidade, caracterizada pela ampliação de doenças como a Aids e a sífilis cuja incidência se multiplicou por 15 na antiga URSS; o aumento espetacular da desigualdade entre ricos e pobres e entre homens e mulheres; o aumento do desemprego e a drástica redução do Produto Interno Bruto. Um balanço que segundo a ONU fez desaparecer nas estatísticas da população 9,7 milhões de pessoas, principalmente na Rússia e Ucrânia, que teriam sobrevivido se não houvesse ocorrido uma deserção política do Estado.
Ante um balanço tão desastroso custa-me crer que depois da queda do Muro o acontecimento possa ser considerado um triunfo da democracia e da paz. É antes um triunfo claro do capitalismo mais brutal e mafioso que se pode imaginar. O Muro tinha que cair, mas não para isto.
Já sei que falar assim parece pecado nesta sociedade. Mas os fatos são os fatos. Neste décimo aniversário da morte de Dolores Ibárruri, é preciso esperar que do atual florescimento da participação feminina na política surjam muitas pasionarias com a coragem e o talento que ela teve para endereçar o rumo de uma sociedade que vai à deriva.





