O começo do fim do Marco Zero
O plano é retirar a cerca, o que decerto condenará a área a pisoteio e mais lixo do que dos drogados habituais
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segunda-feira, 16 de junho de 2025
O plano é retirar a cerca, o que decerto condenará a área a pisoteio e mais lixo do que dos drogados habituais
Domingos Pellegrini 
É tempo de temer pelo Marco Zero, onde a 21 de agosto de 1929 começou Londrina. Ali chegou a primeira caravana, com um moço de 22 anos (!), George Craig Smith, comandando homens de várias etnias, inclusive um índio, antecipando nossa colonização multirracial.
A área pertenceu ao pioneiro Celso Garcia Cid, e por ele foi vendida à Anderson Clayton no final dos anos 60, para custear sua épica importação de gado zebu, e a preservação da mata nos anos 1930 foi iniciativa de Seo Celso quando ainda, embora criada no século 19, nem era usada a palavra ecologia.
A mata continuou preservada pela Anderson Clayton, que custeou a moradia de um vigia permanente ali. Depois, cercada pela urbanização e sem guardião, foi precariamente preservada pela cerca atual, porém vulnerável a penetrações.
Agora, o plano é retirar a cerca, o que decerto condenará a área a pisoteio e mais lixo do que dos drogados habituais. Também planeja-se reflorestar/jardinar, o que, se for feito com espécies exóticas, será um descalabro ambiental. Acesso aberto decerto trará pisoteio e trilhas ao-deus-dará, e não será surpresa se o local se tornar ponto de assentamentos ou ocupações.
A retirada da cerca é cogitada justamente porque mal feita não funcionou, pois, para isso, teria de ser imune à penetração rasteira, como ali se tornou usual, e vigiada por câmeras com monitoramento da Guarda Municipal de dia e da PM à noite, para intervenções rápidas e exemplares.
Na área sem mata, junto à calçada da Avenida Theodoro Vitorelli, também pode-se montar auditório de madeira, para vídeo sobre a origem de Londrina, com folheto explicativo, tornando o local acessível para os 50 mil alunos da rede escolar municipal e os tantos milhares da rede estadual. As árvores mais simbólicas da mata poderiam ser apreciadas com suas respectivas placas de identificação resistentes e visíveis da trilha. Esta seria ideal se elevada, com prejuízo ambiental mínimo mas custo alto, porém a alternativa pode ser simples trilha de pedrisco, como no Hotel Bourbon de Foz do Iguaçu em área maior de mata.
O auditório poderia ser conforme o modelo de casa de madeira feito em vários bairros pelo pioneiro carpinteiro londrinense Domingos Casoni, podendo ser sobre toras, evitando assim alicerçamento e conferindo autenticidade.
Como é próximo da rodoviária, o local poderia ainda receber turismo pedestre também de viajantes. Para receber a todos em visitas monitoradas, a prefeitura teria de ter ali um monitoramento diurno nos dias úteis, com pequenas despesas correntes eliminando um foco de reclamações da vizinhança e desilusão dos londrinenses amantes da nossa história e nossa colonização peculiar.
É muito? É sonho? Mas foi sem temer o sonho, e trabalhando muito, que Celso Garcia Cid comprou dois ônibus jardineira para daí se tornar empresário capaz de, com visão de futuro, ir buscar na Índia uma nova pecuária brasileira. Apenas retirar a cerca do Marco Zero será o começo de seu fim. Tratar o Marco Zero como maior símbolo londrinense exigirá visão, trabalho e dedicação, mas não foi assim que nossos pioneiros fizeram Londrina?
Domingos Pellegrini, escritor


