Ao que parece, Glória Perez diminuiu a velocidade e vem permitindo a conclusão de que não está bem segura no que fazer com seus personagens. No passado, o escritor Gilberto Amado, incursionando pelo terreno do romance, produziu ‘‘Os Interesses da Companhia’’, mas, de certo ponto em diante, não teve outra alternativa se não ‘‘matar’’, um a um, os envolvidos no respectivo roteiro.
Nesse ‘‘O Clone’’, há os personagens centrais e os periféricos, mas todos compõem um fundo múltiplo de tipos, nos quais cada um de nós se pode encontrar e, por certo, com Agatha Christie, se lembra ‘‘quem de vocês nunca sentiu uma súbita pontada ao reviver velha experiência ou ao sentir emoção antiga’’?
A presença de Said dá ensejo a uma simplista conclusão no que se refere à relação ‘‘muçulmano-casamentos’’, cuja análise, para nós ocidentais, traz perplexidades. Porque, por menos ortodoxo que se seja, subsiste abertamente a preocupação fundamental contida no suposto novo amor com Maisa. Ele simboliza o guerreiro vencido, mas não resolvido, cheio de um narcisismo doentio que o leva a comportamentos que não contêm nada de razoável.
O dr. Leônidas - hipomaníaco - é portador de uma síndrome de aproximação e rejeição por Yvete, que, numa distorcida visão, se acha o centra mundis, a mulher fatal, a cujo simples estálido de um dedo todos os homens se devam curvar. Mas ela parece que não tem a mínima noção de que vem servindo como ‘‘massa de manobra’’, embora seja dotada de beleza natural e animal desconcertante, na feliz expressão de Leni Riefensthal, a fiel servidora cinematográfica do regime nazista.
Lucas se porta seguro e reto desde o início, embora paranóide, pois identifica toda a sua carga afetiva numa pessoa de intenso perigo e nunca conseguiu ocultar seu amor reprimido para com Jade, que é, na novela, a estrela maior, a fina flor da candura. Ela é aquilo que os clássicos chamam de mulher apolinea, ansiosamente catastrófica, porém capaz de flechar com o veneno de sua paixão aqueles como Lucas, que são o objeto de sua eleição sentimental.
Deusa, Edivaldo, a mãe de Xande, a Latifa e quejandas são personagens acidentais, que, no conjunto com os que gravitam no Bairro de São Cristóvão, mexem-se com intenso superficionalismo e artificialidade, alguns com teatralidade, como é o caso de Mohamed, em cuja cabeça nunca vai entrar a realidade que estamos no Brasil e não na cultura marroquina. Embora o verdadeiro Marrocos de hoje seja bem diverso.
Stênio Garcia, um tanto depressivo, e Nazira, de personagem evitativa e esquisóide, compõem a dupla que é o ponto alto da novela, em termos um de extrema fidelidade à sua origem, e a outra de perigosa coerência, mas sempre numa estrutura confessional profundamente leal à Jade. Que talvez represente, em termos de juventude, beleza e cobiça, enfim, todos os floridos tributos que a outra não tem. E parece que esses dois é que movem os vetores da novela, balizando as áreas do referencial que cada cultura contém - a do ocidente e a do oriente - embora de um oriente que, na Geografia, é ponto de ligação entre ambas.
Gloria Perez é mestre e PHD em condimentar seus personagens com doses de narcisismo, de egocentrismo, de voyerismo, manhas, artimanhas, escapadelas e sutilezas. Introduz no dr. Albieri, cruza de cientista com bisonho canastrão, com idéia fixa e patogênica na questão do ‘‘clone’’, hoje entendido pela ciência como a retirada de um núcleo celular para compor outros modelos, mas que, nessa pesquisa e busca radical, deixa escapar do necessário controle uma moça paranóide e adventícia, representada pela graciosa Alicinha, cujo enredo se traduz em inquietação, pois ela parece ser um ícone díspar dentro do conjunto, e ninguém ao certo sabe de onde veio nem para onde vai.
A novela sintetiza todos os tipos humanos, todas as nuances de personalidades que não brigam entre si porque não são estreitos os espaços físicos que ocupam. Todavia, toda a trama reflete o drama de cada um de nós, preocupados com problemas miúdos, pela ânsia de desvendar o mistério da vida, cheios de ingenuidade que oscilam para situações de radicalismos e, doravante, a sucessão dos fatos é a esperada solução de conflitos, que - dará, ou não - o selo final de qualidade à novela, causa de deleite, de acompanhamento e de fuga para todos que assistem a trajetória de seus personagens. E a Mel? Representa a moça rica que se volta para o plebeu, na ‘‘contramão’’ de uma rebeldia familiar que define a ‘‘contracultura’’ de seus devaneios.
MOISES DE GODOY é advogado em Londrina

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