Num momento em que se discute tanto sobre clones é impossível não perceber a carga emocional que existe na mídia sobre o assunto nos últimos dias. Repentinamente a palavra começou a ser repetida inúmeras vezes e milhares de pessoas que sequer sabiam seu significado passaram a saber, porém carregadas de um sentimento imenso, originadas da imagem da ovelhinha clonada, chamada Dolly. Jamais imaginaram em sua ignorância ou inocência que clones fazem parte de nossas vidas há muitos anos e, sem exageros, desde que o homem começou a usufruir de técnicas agrícolas nascidas da observação ou do acaso, como é praxe no desenvolvimento científico.
Os clones são, de uma maneira bem simplificada, a reprodução de um ser de forma assexuada, proveniente de alguma parte do doador ou matriz, garantindo a mesma carga genética, e com uma grande probabilidade de acerto as mesmas características daquele.
Seria interessante que as pessoas soubessem que grande parte do papel que utilizam são provenientes de clones de árvores como o ‘Eucalyptus sp’ desenvolvidas por micropropagação ou estaquia. Que compram flores clonadas, que comem legumes provenientes da mesma técnica, e que muitos cultivos domésticos, quer no jardim, quer nos quintais, são também clones. Desde que se peça uma muda daquela linda folhagem pertencente à vizinha, se está cultivando um clone. Quando se planta uma estaca de roseira no jardim, ou se retira uma folha de violeta do vaso da amiga, se coloca em água e se aguarda o enraizamento para posterior plantio, a pessoa está cultivando um clone, ou seja, criando um indivíduo de mesma carga genética, com o objetivo de ter o mesmo efeito, quer decorativo, como floríferas ou hortaliças, ou outros. Enfim deram um nome de destaque a um ato corriqueiro.
Quando porém se resolve clonar, ou se consegue clonar um animal, ou melhor, que se divulgue um resultado positivo da técnica, ocorre o que vemos hoje. Uma comoção mundial. As perguntas que se fazem são várias. Por que essa emoção? Seria o medo do conhecimento aplicado? É a blasfêmia de imitar a ‘Deus’? É a impotência de se compreender cientificamente essa capacidade por parte da maioria absoluta da população mundial e se jogar essa insegurança num imaginário bem cultivado e clonado (sim, pois reproduz em todas as características idéias de muitos séculos) de pecado, submissão a Deus e ou às Igrejas? O medo da perda do controle? Ou numa elucubração enlouquecedora: o medo de que nossos mandatários percam de vez o poder e tenhamos que de repente mudar de chefe, como ocorre em empresas, quando os detentores do conhecimento tomem seus lugares (ao menos o caminho, os ganhos, perdas e punições já são conhecidos).
Por que só agora essa relação se já em 1952 foi feita clonagem de rãs e em 1993 já se obteve resultados positivos em embriões humanos (sem contudo levar-se a cabo o desenvolvimento de um indivíduo)? Será o momento mundial uma nova visão de mundo coletiva, causadora desta ética repentina com relação ao ser? Infelizmente, ou infelizmente, não me cabe a resposta. O que mais me aflige é a possibilidade de que com essa tecnologia percamos a biodiversidade, que ao invés de seres entrarem em extinção, genes entrem em extinção e que o homem seja o único possível depositário desse conhecimento que, bem ou mal, estava assegurado pelo ‘Todo’, que aqui me atrevo a chamar de Natureza. Não seria muita responsabilidade, para alguns espécimes de uma espécie tão insegura, instável e insana? Que comete genocídios numa Segunda Guerra, que promove uma grande guerra civil em plena Europa no fim do milênio, e que jurava paz eterna ao tempo da derrubada do muro de Berlim? Não seria uma bomba atômica sob responsabilidade de um menino de 10 anos, que não faz xixi na cama, toma banho, vai bem na escola, mas que tem medo do escuro? Aparentemente o ‘clone’ é o causador, mas na verdade é o estopim de tantas angústias carregadas por todos, que, quem sabe, o inconsciente coletivo de Jung seria capaz de elucidar.
- EMÍLIO TREVISAN é professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa e aluno do curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento na Universidade Federal do Paraná.

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