O clamor das urnas
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segunda-feira, 14 de outubro de 2002
René Ruschel 
Ao final de cada eleição, as urnas - agora eletrônicas - trazem aos políticos e a própria sociedade subsídios que, se levados a sério, serviriam de parâmetros para guiar os destinos da Nação pelos quatro próximos anos. Como os chamados programas de governo não servem para quase nada, uma vez que se trata de um amontoado de promessas mirabolantes e quase sempre irrealizáveis, os eleitos poderiam se debruçar ante os números e avaliar o grau de satisfação da tigrada a partir dos seus resultados.
Vejamos por exemplo o que diz o pleito do dia 6 de outubro. Em primeiro lugar, e com muita clareza, que 75% dos eleitores querem transformações profundas no País; em segundo, que a estrutura social necessita não mais de remendos - até porque seu tecido está esgarçado e não suporta novos retoques - mas sim de uma reformulação nos conceitos que regem a pátria amada a mais de quinhentos anos e em terceiro, que esta transformação deve ser urgente, caso contrário a ruptura poderá se dar pela violência dos desassistidos, com amparo do crime organizado.
O Brasil que escreveu o resultado do primeiro turno das eleições quer mudanças de rumo. O curioso neste processo é que mais de um terço destes eleitores, segundo as pesquisas de opinião pública, consideram o governo FHC bom. Talvez o que ainda não foi analisado pelos estudiosos de plantão e esteja merecendo uma avaliação mais apurada é que, enquanto o modelo não for reordenado, não será este ou aquele candidato que irá resolver as graves questões que nos afetam. A saída não está apenas no formato do governo que venha assumir, mas sim nos fundamentos básicos que deverão reger suas estruturas. Seria o mesmo que trocar o principal executivo de uma empresa, mantendo as entranhas carcomidas pelos ranços do atraso, da desorganização, da ausência de tecnologia moderna ou do treinamento inadequado da mão-de-obra.
O próximo presidente da República deverá ter como meta prioritária vontade política para mudar o ''status social'' vigente. Aliás, o maior ônus que o candidato José Serra carrega nesta disputa é exatamente a falta de confiança dos eleitores que, uma vez eleito, venha de fato implementar o que propõe na campanha. A rigor, entre o que ele e Lula prometem, há muito mais semelhanças que divergências. O que as separam são, muitas vezes, de natureza quantitativas, mas não qualitativas. Um diz que vai criar oito milhões empregos; outro dez. Acontece que Lula conseguiu transmitir ao eleitor não só credibilidade como o desejo por mudanças, afinal, durante todo o período da administração peessedebista as prioridades contidas no plano de governo do candidato Fernando Henrique foram por água abaixo. Quem não se lembra da mão aberta contendo em cada dedo uma proposta: educação, agricultura, emprego, segurança e saúde.
Certamente que por maiores que sejam as críticas ao governo, é preciso reconhecer que a proposta conceitual básica do presidente Fernando Henrique Cardoso, nestes quase oito anos, atingiu seus objetivos. Se nada mais tivesse acontecido, o simples fato da inflação ter sido debelada, morta e sepultada já seria um grande avanço. No entanto, em paralelo, uma sucessão de fatos levou o Brasil a um abismo social só comparável às regiões em conflito de guerra, somando-se ao desemprego, a falta de infra-estrutura básica, principalmente as populações mais carentes, redundando numa crise econômica e financeira das mais graves. Serra, por mais que tentasse, não conseguiu se descolar da condição de candidato oficial ou até mesmo de co-responsável por grande parte destas mazelas. Afinal, ocupou os cargos de ministro do Planejamento e da Saúde.
Para o segundo turno tudo começa do zero. Os candidatos terão os mesmos tempos na televisão e no rádio, além do que, os debates estarão centrados em temas específicos. Aquele que conseguir entender o recado das urnas e mostrar disposição em mudar a cara deste país, terá o apoio da maioria.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


