Os níveis de má saúde nos países que têm a maioria da população mundial representam uma ameaça direta contra suas próprias economias nacionais e sua viabilidade política e, ainda, contra a economia global e os interesses políticos de todas as nações. Então, não podemos nos permitir ignorá-los.
Somente as doenças infecciosas provocam 13 milhões de mortes por ano na África subsaariana, onde se prevê que a expectativa de vida, que subiu dos 59 anos, no início da década de 90, cairá para 45 anos entre 2005 e 2010. A situação é pior naqueles países mais severamente afetados pela epidemia HIV/Aids, onde a já existente carga de enfermidades infecciosas se agravou por uma epidemia que supera largamente todas as projeções passadas.
Entre os 10,5 milhões de crianças que morreram em 1999, 99% eram de países em desenvolvimento. Mais de 50% dessas mortes deveram-se precisamente a cinco doenças infecciosas que foram mais mortais por causa da desnutrição. Dois milhões morrem anualmente devido à tuberculose e 99% dessas mortes acontecem no mundo em desenvolvimento.
De forma crescente, está se reconhecendo que o custo econômico total destas enfermidades para as comunidades pobres tem sido subestimado. Os índices de 10% a 15% de incidência da Aids, que atualmente se observa em vários países, podem traduzir-se numa redução da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita de mais de 1% ao ano.
Estima-se que a tuberculose cobra um tributo econômico anual equivalente a US$ 12 milhões sobre a renda das comunidades pobres. Se a malária tivesse sido bloqueada há 30 anos, quando pela primeira vez estiveram à mão medidas efetivas de controle, o PIB da África teria sido, provavelmente, US$ 100 milhões maior do que o atual, segundo um relatório sobre as consequências econômicas da malária apresentado aos líderes africanos no início do ano passado.
Que a pobreza causa má sa© úde é bastante sabido. O que é menos conhecido é que uma melhoria na saúde da população acrescentaria significativo impulso às forças do desenvolvimento econômico e à redução da pobreza. Em nossa análise sobre os sistemas de saúde, publicado no ‘‘Informe sobre a Saúde Mundial’’ do ano passado, um dos principais fatores associados com os mais baixos níveis de rendimento foi o gasto per capita inferior a US$ 60 anuais. Porém, os governos dos países pobres não podem reduzir a carga da enfermidade com um gasto per capita anual que frequentemente é de apenas US$ 10. No caso da malária, estimamos que para reduzir à metade a mortalidade em razão dessa doença na África seriam necessários US$ 1 bilhão adicionais por ano.
A brecha em matéria de recursos necessários para combater o HIV/Aids é ainda maior, provavelmente da ordem de US$ 2,5 bilhões somente para os trabalhos de prevenção. Acrescente-se a isso, como é devido, os custos do cuidado com os doentes e os números aumentam de forma mais dramática. Mas, tais investimentos são essenciais para o desenvolvimento econômico e humano de todo nosso mundo.
Essa distância entre o que se necessita e o que se gasta realmente pode ser parcialmente coberta através de esforços financeiros por parte dos próprios países. Entretanto, eles enfrentam verdadeiras dificuldades. Atacar os problemas descritos não será possível sem um significativo e sustentado aumento da ajuda para o desenvolvimento, incluindo fundos para o alívio da dívida quando estejam disponíveis.
Se olharmos como será a carga global da doença dentro de 20 anos, deparamos com um panorama diferente e mais complexo do que o atual. As enfermidades infecciosas continuarão sendo globalmente causas importantes de morte e invalidez, particularmente nas regiões mais pobres. Tradicionais causas de mortalidade, como o HIV/Aids, tuberculose e malária, bem como as condições de vida das mães e das crianças e os problemas de nutrição, ainda representarão mais de 40% da carga da enfermidade na África subsaariana em 2020, presumindo-se que as economias dos países dessa região continuem crescendo aproximadamente no mesmo ritmo dos últimos anos.
Além disso, haverá crescentes problemas sanitários vinculados a enfermidades não contagiosas e a diversas lesões, muitas delas associadas à velhice. Também se intensificarão as doenças provocadas pelo tabaco. A saúde mental, as doenças cardiovasculares e os acidentes de trânsito estão entre as cinco previstas causas principais da carga global de enfermidades em 2020. E, adianta-se que o tabaco será o maior assassino entre todos eles, já que causará mais mortes do que a malária, o HIV/Aids e a tuberculose juntas.
Para enfrentar este desafio, são essenciais os investimentos em novos sistemas que melhorem a saúde em todas as nações e entre todos os povos. A capacidade para prever a mudança e para transformar nossos sistemas de saúde em resposta a tal mudança é que irá determinar se a saúde das pessoas melhorará, ou não.
- GRO HARLEM BRUNDTLAND é diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ex-primeira-ministra da Noruega (IPS)

mockup