O círculo do medo - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de setembro de 1998
Arlete Salvador 
É preciso enfrentar muitos medos na vida. Medo da violência urbana escondida nas esquinas, dos motoristas bêbados no trânsito, da poluição a invadir os pulmões, dos engarrafamentos medonhos. Nos gestos pequenos, tão incorporados à rotina diária a ponto de passarem despercebidos, estão os sinais desse medo. Fechar os vidros do carro, trancar as portas, não parar no sinal vermelho à noite, atravessar a rua para evitar um grupo de crianças maltrapilhas, ignorar o pedido de uma esmola.
Quem contabiliza, no final do dia, quando coloca a cabeça no travesseiro, quantas vezes fez isso? Com esses medos estamos acostumados. Também estamos preparados para aquele medo natural de desgraças que possam se abater sobre os filhos e maridos. Doenças devastadoras da juventude e outras que nos acometem na velhice. Contra esses estamos vacinados, damos como coisa da vida e do amor que dedicamos às famílias e à nossa própria saúde. Que se há de fazer, além de pagar um bom plano de saúde e torcer fervorosamente para que as crianças tomem jeito e caminho na vida?
Mas há aqueles medos com os quais não se aprende nunca a conviver. Falo de um em particular, muito comum na vida brasileira, que cria uma série de outros - o medo de uma crise econômica e, na esteira dela, do desemprego generalizado (se é que se pode tolerar qualquer tipo de desemprego), para citar apenas uma consequência imediata. É mais devastador do que a ameaça do bandido armado e da doença fatal porque não há nada que possamos fazer contra ele.
Pode-se evitar lugares ermos à noite para evitar a violência ou apelar para uma dieta alimentar rica em fibras para escapar de um câncer. Mas do desemprego e da quebradeira econômica, não. Caem-nos no colo sem que saibamos de onde vêm e que culpa tivemos. O País vive um momento que até os desempregados são responsabilizados por terem perdido o emprego. Não estudaram o bastante ou estudaram demais. Não se reciclaram ou estão avançados demais para o posto. Perderam o trem da história, diz-se.
Agora vem bater à nossa porta a ameaça da quebra das Bolsas de valores no mundo todo. A nós, que há bem poucos meses imaginávamos que bolsa de valores eram aqueles cofres para guardar documentos e jóias. Estamos novamente na iminência de um pacote fiscal, de aumento de impostos, de mais desemprego, de recessão e, talvez, da inflação.
A geração de brasileiros que hoje está na faixa dos 40 anos não sabe o que é estabilidade. Viveu com medo toda a vida adulta - da ditadura, da recessão, da inflação ou do desemprego. Os quatro (ou cinco) anos do Plano Real não podem ser chamados de estabilidade. A instabilidade está aí para mostrar que não havia estabilidade.
A série de programas econômicos tão heterodoxos quanto fracassados e violentos dos últimos anos nos deixou alarmados. Pouco importa que digam que o Brasil não é a Rússia e que este governo é diferente do outro. Pouco importa saber também se a crise é mundial ou local. Veio com a globalização, aquela coisa que nos diziam ser a mais moderna versão do capitalismo. Estamos com medo, de novo.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


