O círculo de aplausos
O líder vaidoso não precisa ser ignorante em tudo. Pode ter experiência, inteligência e até boas intenções
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segunda-feira, 05 de outubro de 2026
O líder vaidoso não precisa ser ignorante em tudo. Pode ter experiência, inteligência e até boas intenções
Abraham Shapiro 
Imagine uma reunião de governo. Um plano importante está sobre a mesa. Os números mostram riscos, o prazo é apertado e há dúvidas sobre os custos. Ninguém quer contrariar o ministro. A reunião termina em clima de sucesso. Meses depois, o plano fracassa e começam as buscas por culpados.
A cena não é exclusiva da política. Ela é reconhecível porque o poder concentra decisões e, com elas, uma tentação antiga: confundir respeito com concordância. Há poucos dias, num círculo de amigos, alguém disse: “a política é definida por gente muito burra e vaidosa”. A princípio, a frase soa como insulto. Mas aponta para algo mais sério quando descreve um mecanismo: a vaidade de quem manda pode selecionar pessoas incapazes de contrariá-lo.
O líder vaidoso não precisa ser ignorante em tudo. Pode ter experiência, inteligência e até boas intenções. O problema surge quando sua necessidade de parecer sempre certo se torna maior que o compromisso com a realidade. Nesse momento, a crítica deixa de ser informação e passa a ser afronta. Uma pergunta incômoda vira deslealdade. Uma má notícia parece provocação.
É aí que começa a seleção ao contrário. Profissionais competentes costumam apontar limites, riscos e consequências. Apontam riscos para corrigir o rumo, não para humilhar o chefe. Quem precisa de aplauso, porém, prefere gente que concorde depressa, elogie com entusiasmo e transforme qualquer ideia em genialidade. Lealdade vira submissão.
A equipe aprende a regra sem que ninguém precise escrevê-la: diga o que o chefe quer ouvir. Os capazes se calam, procuram outro lugar ou deixam de ser consultados. Os bajuladores permanecem por perto e ganham influência. O governante acaba cercado de vozes que repetem suas certezas. Parece ter apoio; na verdade, perdeu acesso à realidade. O erro se consolida quando ninguém pode corrigi-lo antes de virar prejuízo.
Na vida pública, o custo desse isolamento é pago por todos. Uma decisão mal examinada pode desperdiçar recursos, atrasar serviços, agravar problemas e frustrar quem depende do Estado. Quando os dados são escolhidos para proteger uma imagem, o diagnóstico fica comprometido. Quando a crítica vira traição, os erros deixam de ser corrigidos e passam a ser defendidos. Propaganda pode render aplausos, mas não constrói escolas nem melhora serviços.
Isso não autoriza dizer que todo político seja incompetente ou vaidoso. Também não torna qualquer crítico automaticamente lúcido. A crítica precisa de fatos, argumentos e responsabilidade. O ponto é outro: instituições fechadas, partidos que premiam obediência e nomeações feitas por confiança pessoal podem transformar a vaidade individual em método de governo. O problema não está apenas no temperamento de quem ocupa o cargo. Está nas regras que permitem que ninguém o confronte.
Por isso, não basta esperar encontrar um líder sem ego. Esse personagem perfeito não existe. O que se pode exigir são limites, transparência, fiscalização independente, critérios claros para nomear equipes e espaço real para o contraditório. É preciso medir governantes pelo que entregam, não pelo tamanho do palco nem pela habilidade de produzir frases de efeito.
Ao cidadão cabe fazer perguntas simples, mas decisivas: qual problema será resolvido? Com que prazo? Como o resultado será medido?
Um líder não precisa ser a pessoa mais brilhante da sala. Precisa permitir que a sala pense melhor do que ele sozinho. A vaidade se torna um problema nacional quando todos ao redor são obrigados a servi-la. O Brasil perde quando estar perto do poder exige silêncio. Ganha quando competência pode discordar, apresentar evidências e corrigir o rumo.
Governar não é receber aplausos. É suportar a verdade, inclusive quando ela contraria o governante, e responder pelas consequências. Quem só aceita ouvir elogios talvez goste do cargo. Isso, por si só, não prova que saiba exercê-lo.
Abraham Shapiro, consultor de empresas, mentor de gestores e líderes.
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