O cientista, este presunçoso
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 1996
Maria Lucia Victor Barbosa 
Não se pretende nesse pequeno texto ir contra a ciência, ou defender a superstição e a ignorância. Apenas se fará uma tentativa de refletir sobre a presunção de certos cientistas que pretendem tudo saber, e que frequentemente se prostam desnorteados diante de suas próprias descobertas.
Com relação à questão podemos primeiramente observar que para alguns cientistas não passamos de um amontoado de moléculas, criadas e organizadas por acaso. Este determinismo biológico radical, baseado numa suposta evolução cega, ao negligenciar o fator cultural emudece diante do processo de aprendizado através da experiência, não dando respostas satisfatórias a respeito da consciência que habilita o homem a fazer escolhas.
Seguindo a mesma linha estritamente materialista, cientistas não conseguem desvendar a contento o mecanismo cerebral. E por mais que tenham avançado nas suas descobertas com relação a essa máquina gelatinosa e perfeita, central de controle do corpo humano, os pesquisadores apenas arranham a superfície do conhecimento. Presunçosos, crêem ter encontrado a chave do enigma apenas por entreverem certas reações químicas em conexão com emoções, expressões e memória. Mas o mistério permanece submerso em profundezas insondáveis.
E se o cérebro, esse nosso universo interior, continua desconhecido, o mesmo se dá com o universo exterior. Muitas teorias têm se esfarelado diante de imagens mostradas pelo telescópio espacial Hubble. Por exemplo, antes das fotos do Hubble, os atrônomos haviam levantado hipóteses que consideravam bastante razoáveis sobre os misteriosos quasares e buracos negros. Agora, diz John Bahcall, professor de ciências naturais do Instituto para Estudos Avançados de Princeton, em Nova Jersey: Tudo o que sabíamos sobre esses corpos celestes pode ser jogado fora.
A grande novidade do momento, porém, foi a descoberta de água na lua, um imenso lago congelado que espantou os cientistas americanos e de todo o mundo. Imediatamente, hipóteses foram levantadas para explicar o fenômeno. Mas estarão elas certas? O que sabe a ciência sobre o macrocosmos e o microcosmos? Apesar dos enormes e inquestionáveis avanços já havidos, será que não está faltando um pouco de humildade aos cientistas? Não estará o excesso de especialização obscurecendo a visão da totalidade humana, que compreende corpo, mente e alma? Certamente em civilizações do passado se sabia mais acerca de algumas verdades essenciais do que hoje, apesar do nosso incrível progresso material.
Sem dúvida o maior problema é que na atualidade está faltando harmonizar as descobertas relativas à matéria com a essência espiritual do homem. Sem essa junção, por maior que seja avanço científico conquistado, cai-se na imprecisão dos limites. Até onde vai o limite da vida com as novas descobertas médicas? Se é proibido matar através do aborto e de eutanásia, porque não é proibido também protelar a morte inevitável, livrando do sofrimento e da dor os que precisam morrer? E qual é hoje o sentido da morte? Se ele não existe, também a vida perde o sentido? Seríamos robôs de carne, sem consciência ou vontade, vagando por acaso nesse planeta? E se a vida perde o sentido perde também a dignidade, para a alegria dos que justificam teorias nazistas.
Sim, de forma arrogante e presunçosa a ciência avança, e por isso fez sucesso nos meios científicos o francês Jacques Monod, ganhador do prêmio Nobel de Biologia, quando afirmou: O homem finalmente sabe que está sozinho na imensidão insensível do universo, na qual ele emergiu por acaso.
Mas seremos as únicas formas de vida nas vastidões do Cosmos? O que sabemos sobre a vida no espaço? Este sempre foi um ponto bastante controverso e polêmico, alcançando ao mesmo tempo as esferas da ciência e da religião. A Igreja Católica sempre considerou heréticas as discussões sobre extraterrestres, e o filósofo Giordano Bruno foi parar na fogueira em 1600 por conta de suas especulações sobre mundos habitados.
Sobre o tema escreveu na revista Time, de 05/02/96, Paul Davies, professor de história natural da Universidade de Adelaide, Austrália, e autor de mais de vinte livros: A descoberta da vida além da terra transformaria não somente nossa ciência mas também nossa religião, nosso sistema de crenças e nossa inteira visão de mundo. Num certo sentido, a busca da vida extraterrestre é realmente a busca de nós mesmos - quem somos e qual nosso lugar na grande e majestosa trajetória do Cosmos.
Paul Davies também lembra que a especulação sobre não estarmos sozinhos no universo é tão antiga quanto a filosofia. O passo essencial nessa argumentação baseou-se na teoria atômica do antigo filósofo grego Demócrito. Primeiro, as leis da natureza são universais. Segundo, não existe nada especial ou privilegiado com relação a terra. Finalmente, se alguma coisa é possível, a natureza tende fazê-la acontecer.
Se os atuais cientistas pudessem unir o conhecimento do presente à sabedoria do passado, quem sabe seriam menos presunçosos e a humanidade mais feliz.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.


