O cientista, este humilde
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de dezembro de 1996
Magloire Múleka-Dítoka wa Kalenga 
Ao ler o artigo da socióloga Maria Lucia Victor Barbosa publicado na Folha de Londrina de 14 de dezembro de 1996 com o título O cientista, este presunçoso, fiquei tão atordoado que resolvi, humildemente, entrar na discussão que essa eminente autora levanta. O meu espanto justifica-se pela atitude maniqueísta da socióloga, quando por um lado apresenta o cientista como um homem mau e, por outro, limita a qualidade de cientista a uma única categoria que fustiga: os cartesianistas e outros behavioristas como o prêmio Nobel de Biologia Jacques Monod. O meu ponto de vista é que o culpado pela limitação que denuncia o cientista social Barbosa não deve ser o cientista mas o paradigma. Pois há cientistas dominados pelo demônio da separatividade que, desde René Descartes e com a cumplicidade da Igreja Católica limitam como objeto digno de investigação científica a realidade visível, palpável, observável, mensurável, predizível, isto é, a realidade material, a realidade de objetos que ocupam espaço euclidiano e se movem no tempo linear. Mas graças a Deus há cientistas dominados pelo demônio da unidade que, desde os místicos e sem a cumplicidade da Igreja Católica reconhecem a sua limitação perante a grandeza e o comportamento impredizível do Universo e tentam, na medida do possível, considerar o invisível e o visível como objetos dignos de investigação científica. É o caso dos físicos Fritjof Capra, prêmio Nobel de Física, David Bohm e de biólogos como Sheldrake e de outros cientistas ainda como Pribram, inventor do paradigma holográfico. Com intuito de colocar esses cientistas humildes dentro da moldura barbosiana, tomo a liberdade de reproduzir o artigo de Maria Lucia Victor Barbosa substituindo algumas palavras e conceitos dela por outras palavras e conceitos meus.
Não se pretende nesse pequeno texto ir contra a ciência, ou de defender a superstição e a ignorância. Apenas se fará uma tentativa de refletir sobre afalta de presunçãode certos cientistas que não pretendem tudo saber, e que frequentemente se prostram desnorteados diante de suas próprias descobertas.
Com relação à questão podemos primeiramente observar que para alguns cientistas somos mais que um amontoado de moléculas criadas - e organizadas por acaso. Este não determinismo biológico relativo, baseado numa verdadeira evolução caótica, ao não negligenciar - o fator cultural amadurece diante do processo de aprendizagem através da experiência, dando respostas satisfatórias a respeito da consciência que habilita o homem a fazer escolhas. Exatamente, como em civilizações do passado, esses cientistas tentam saber mais acerca de algumas verdades essenciais junto com o nosso incrível progresso material.
Sem dúvida o maior alívio é que na atualidade não está faltando harmonizar as descobertas relativas à matéria com a essência espiritural do homem. Sem essa junção, por maior que seja o avanço científico conquistado, cai-se na imprecisão dos limites...
Sim, de forma não arrogante e humilde, a ciência avança e por isso fez sucesso nos meios científicos e místicos o físico Fritjof Capra, ganhador do prêmio Nobel de Física quando afirmou, citando Carlos Casta¤eda qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum - para si mesmo ou para os outros - abandoná-lo quando assim ordena o seu coração (...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração?! Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma.
Quando Fritjof Capra emprestou essas palavras de Casta¤eda para introduzir o seu famoso livro O Tao da Física certamente tinha na sua mente a importância da cultura e da essência espiritual do homem. Ele escreve ainda, a respeito da física moderna: ... Contudo, a influência da Física moderna ultrapassa a tecnologia, estendendo-se ao reino do pensamento e da cultura.
Sim, de forma não arrogante e humilde a ciência avança e por isso fez sucesso o prêmio Nobel de Química Ilya Prigogine quando afirmou: ... Por outro lado, o desenvolvimento recente da ciência do caos dinâmico impõe por si mesmo tal mudança. A mudança de que fala Prigogine é a mudança radical do modo de conceituação que está na base da Física. Isto é, o abandono progressivo do caminho newtoniano como paradigma exclusivo do conhecimento científico.
Como os atuais cientistas estão unindo o conhecimento do presente à sabedoria do passado; eles estão sendo menos presunçosos e mais humildes, quem sabe se com isso a humanidade não poderá ser mais feliz.
- MAGLOIRE MÚLEKA-DÍTOKA WA KALENGA é professor de Teoria da Informação na Faculdade de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina.


