O cidadão, o boateiro e o lacrador
A política não é opinião instantânea: sem representação, resta apenas ruído ou autoritarismo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de abril de 2026
A política não é opinião instantânea: sem representação, resta apenas ruído ou autoritarismo
João Luiz Esteves e Eduardo Figueiredo. 
Há uma frase repetida com a tranquilidade de quem acredita ter encerrado o debate: “cada povo tem o governo que merece”. Nos deparamos com ela, quase sempre no fim de um diálogo de elevador ou de cafezinho. Cumpre a função de encerrar uma conversa. Atribuída a um antigo monarquista, Joseph De Maistre, ela circula hoje como frase pronta — não para explicar a política, mas para dispensar qualquer esforço de compreender a política. É nesse ponto que começa o problema.
O debate público contemporâneo passou a ser ocupado por três figuras cada vez mais visíveis: o cidadão desorientado, o boateiro e o lacrador — aquele que busca o aplauso imediato em vez de compreensão. O primeiro não compreende como a política realmente funciona; o segundo a distorce — por ignorância ou conveniência; o terceiro não quer compreendê-la, mas explorá-la. E, no entanto, são eles que, cada vez mais, moldam a forma como a sociedade enxerga o poder. E, por vezes, essas figuras não estão fora das instituições — estão dentro delas. O problema se agrava quando essas figuras não estão apenas nas redes — estão também nos órgãos legislativos. O representante que faz política pelo efeito não é solução para este problema. É parte dele.
A política não se resume — e não deve se reduzir — ao que circula nas redes sociais. Ela não é a soma imediata de opiniões. Não é o que alguém diz com mais curtidas ou qualquer outra visibilidade digital . Não é o que se impõe pelo grito mais alto. A política moderna foi construída exatamente para evitar isso. Com o tempo, há mais de dois séculos, especialmente com o Iluminismo e o uso da razão, ficou claro que não se governa uma sociedade apenas com as vontades imediatas, dispersas de milhões de pessoas. É necessário organizá-las em decisões coletivas. Essa mediação se chama representação política. Em termos simples: o povo não governa diretamente. Ele elege representantes para tomar decisões em seu nome, dentro de regras, limites e responsabilidades. Esses representantes não são donos do poder — são mandatários. E suas decisões não são livres — são condicionadas pela Constituição.
A representação existe, portanto, para dar forma jurídica à vontade política. Para transformar opiniões dispersas em decisões organizadas. Para permitir que a sociedade funcione sem cair no caos ou na arbitrariedade. Sem ela, não há democracia possível. A política não se confunde com a opinião imediata. Sem representação retornaremos ao autoritarismo. O que se observa hoje, porém, é o enfraquecimento dessa mediação.
O boateiro dissolve a verdade em versões. O lacrador substitui o argumento pelo efeito. E o cidadão desorientado, submetido a esse ambiente, passa a desconfiar das instituições não porque as conhece, mas porque não as compreende. Forma-se, assim, um círculo vicioso: quanto menos se entende a política, mais se desconfia dela — e quanto mais se desconfia, menos se quer compreendê-la. É nesse ambiente que a velha frase de De Maistre retorna, agora com nova função: justificar a própria recusa em pensar. Mas essa leitura é não apenas simplista — é perigosa.
No constitucionalismo brasileiro, especialmente a partir da Constituição de 1988, a política não é um improviso coletivo. Ela é organizada por um conjunto de normas que orientam, limitam e vinculam o poder. Os fundamentos da República e seus objetivos não são enfeites retóricos. São diretrizes obrigatórias que devem orientar todas as decisões públicas. A representação, nesse contexto, é o instrumento que permite que essas normas se tornem realidade. É por meio dela que direitos fundamentais são implementados. É por meio dela que o poder é controlado. É por meio dela que a Constituição deixa de ser promessa e passa a ser prática. Desqualificar a representação com frases prontas ou reduzi-la a caricaturas produzidas no ambiente digital não apenas empobrece o debate público — compromete o próprio funcionamento do Estado. A chamada “crise da representação” tornou-se um lugar comum. Repete-se sua existência com mais convicção do que se investiga suas causas. E, com isso, abre-se espaço para soluções fáceis, que não resolvem o problema — apenas aprofundam a confusão. Não há política sem mediação e debate. Não há democracia sem instituições. Entre o cidadão desorientado, o boateiro e o lacrador, perde-se algo fundamental: a compreensão de que o poder político não é expressão imediata de vontades dispersas, mas resultado de um processo institucional que exige responsabilidade, conhecimento e compromisso com a ordem constitucional.
Recuperar essa compreensão é, hoje, menos um exercício teórico e mais uma necessidade prática. Porque, ao contrário do que se repete com tanta facilidade, o governo que temos não é apenas o que merecemos — é, sobretudo, o que somos capazes de compreender e realizar de forma coletiva.
João Luiz Esteves e Eduardo Figueiredo. Professores de Direito Constitucional e Direito Administrativo da Universidade Estadual de Londrina.


