O cidadão inserido nos partidos
A coerência não é atributo muito encontrável no círculo da comunidade política, e se não deve surpreender a ninguém essa prática corrente na vida pública brasileira, é necessário repudiar isso veementemente, por todas as formas. Infelizmente, parece não haver perspectiva de que isto se modifique tão cedo. Em São Paulo, adversários ferrenhos como Paulo Maluf e Marta Suplicy chegam a um acordo político, não em defesa de uma eventual causa de interesse público, mas porque é a José Serra que o ex-prefeito visa agora se contrapor. A candidata petista e atual prefeita tem suas razões para declarar que aceita votos de onde quer que venham, inclusive dos malufistas e do próprio Maluf, já que não pode recusá-lo, mas o que não deve haver é celebração e desprezo desavergonhado por posições antagônicas anteriores, algumas extremadas, porque isto violenta a memória e a dignidade do eleitor. Por comuns que sejam esses arranjos entre derrotados e candidatos que continuam na disputa, é necessário um mínimo de decoro depois que adversários históricos tanto se atacaram e mais tarde acabam se unindo por pura conveniência eleitoral ou pessoal, ou partidários leais do passado que de repente começam a agredir-se mutuamente, sem esconder isso da platéia perplexa, como se tudo o que outrora disseram não tinha a mínima validade. Não há então como acreditar em valores defendidos por certos candidatos, se amanhã passam a falar ao contrário, repudiando o que aprovaram e aprovando o que repudiaram. Tudo isso com o aval dos respectivos partidos, que de há muito perderam fisionomia e não sustentam seu ideário básico. Assim, o seleto grupo apto a votar e que, pelo sufrágio, precisa representar a nação inteira e assumir o ônus dessa responsabilidade, fica sem opção de escolha ideológica. Descaracteriza-se assim a representatividade via partido político que os eleitores, certamente, apreciaram ter, afinal um ideal de cidadania. Oportuno é comparar que os brasileiros têm mais representação no partido futebolístico do que no partido político, o que é lamentável porque as duas correntes poderiam existir, em plenitude. Porque deve interessar muito ao cidadão imaginar-se parte atuante de uma ideologia política e agente de processos de mudança, não apenas pela ação do voto mas pela participação a partir da escolha de candidatos, no reduto do partido, e da rejeição de acordos, se espúrios e contrários aos princípios partidários fundamentais. O caciquismo, assim, iria perdendo força e a democracia se manifestaria mais legítima e recuperaria qualidade.





