O ciclo do caranguejo na política - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de setembro de 1998
Gaudêncio Torquato 
Há imagens fortes e impressões que ficam gravadas na mente de uma pessoa durante toda a vida. As crianças-esqueleto da Somália, os primeiros passos (de canguru) do homem na Lua, o cogumelo atômico sobre Hiroshima, a cara de pavor da criança nua correndo das bombas no Vietnã são algumas delas. No capítulo da sobrevivência, é insuperável a imagem de Josué de Castro, quando descreveu, no clássico A Geografia da Fome, como vivem os nordestinos na beira dos mangues. Alimentam-se de caranguejos, parte dos quais vendem para sobreviver; fazem suas necessidades fisiológicas no próprio mangue e, assim, alimentam os bichinhos. Que, gordos, voltam para a barriga dos pescadores. É o ciclo do caranguejo, um sistema harmônico, cíclico e persistente.
A modernidade, sabe-se, chegou ao Nordeste na esteira de uma industrialização que, de modo paulatino porém constante, chega às principais capitais. Coisas refinadas aí se vêem, desde restaurantes chiques a shopping centers burbulhantes e bares modernosos, onde as pessoas curtem a mais barulhenta cultura da exibição. Mas continua lá, indevassável, com seu cheiro característico e conformação pré-histórica, o mangue com seu ciclo do caranguejo.
Paremos por aqui. A imagem é útil para garantir a conclusão: há um ciclo do caranguejo na política. Na atual campanha, dá para se perceber a importância e a visibilidade do ciclo. A coisa funciona assim: empresários alimentam candidatos com seus recursos; eleitos, os candidatos alimentam os patrocinadores, facilitando e, às vezes, engordando seus negócios junto às esferas federal, estadual e municipal. Em resumo: o toma-lá da campanha é correspondido pelo toma-aqui das administrações eleitas.
Aí está a raiz da corrupção eleitoral. Como extirpá-la? Difícil resposta, porque não se acaba corrupção por decreto. A questão é cultural. Mas o início da solução está no financiamento público das campanhas eleitorais. Há que se preservar o princípio igualitário dos direitos e deveres dos candidatos. Hoje, os mais ricos e bem amparados pela colcha do patrocínio têm mais condições de sucesso.
O Congresso se renova cerca de 30 a 40% a cada eleição, mas o índice de renovação maior se dá nos grupos mais endinheirados. Os setores mais prósperos - de todas as áreas produtivas - descobriram na política um grande negócio. Passa a ser um investimento. Dinheiro público, do Orçamento da União, repartido proporcionalmente de acordo com as posições partidárias na representação popular, diminuiria a taxa de corrupção na política. Não acabaria com a corrupção, mas possibilitaria condições de disputa a candidatos de perfil honesto e comprometido com as causas da sociedade.
É preferível que os impostos do povo paguem as campanhas porque as sobras dos ricos elegerão apenas seus representantes. O importante é garantir a cidadãos decentes e comprovadamente bem-intencionados acesso ao poder político. Por menor que seja o recurso público, será ele melhor que a verba privada, escondida, aquela que será ressarcida, mais adiante, para alimentar o ciclo do caranguejo. Há, portanto, um dejeto político, que maltrata a cidadania. Maltrata porque serve para perpetuar grupos de interesses e expandir os currais do fisiologismo. E a servidão política é um dos maiores obstáculos aos avanços do pensamento.
Se você, leitor, quiser sentir mais de perto a epopéia dos candidatos, na atual campanha, faça o seguinte exercício: compare três ou quatro candidatos de seu conhecimento. Veja qual dentre eles é o mais compromissado com seus ideais. Analise, a seguir, se esses ideais são muito pessoais (emprego ou outra forma de ajuda direta) ou coletivos (compromissos com a população).
Se o candidato entrar no perfil dos compromissos coletivos, aposte nele. Possivelmente, ele estará enfrentando mais dificuldades que outros. O candidato que defende o ideal coletivo geralmente conta com poucos recursos. O Brasil precisa mais deles. Merece ser ajudado com o voto.
Agora, se você acha que a política é uma troca, faça negócio. Não se esqueça: o pecado estará registrado no livro de sua história.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo, e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
(E-mail: [email protected])


