A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter suficiente habilidade interpessoal para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará, constantemente, os que a apóiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder. O pensamento, expresso por Robert Lane, em Political Life, explica por que muitos políticos acabam deixando escapar o poder que conquistariam com racionalidade, caso a ambição desmesurada não corroesse a visão estratégica.
A questão pode ser ainda analisada sob o ângulo do ciclo de vida do político. Na administração empresarial, é bastante conhecido o conceito do ciclo de vida das organizações. Elas nascem, se desenvolvem, amadurecem, expandem-se e, em determinado momento da vida, chegam ao ápice de seus negócios. Costumo adaptar o conceito para as campanhas eleitorais, quando apresento os cinco momentos principais do pleito: a pré-campanha, o lançamento do nome, o crescimento, a maturidade e o clímax, que, evidentemente, deve ser planejado para coincidir com a semana da eleição.
Pois bem, a vida de um político também é pontuada por ciclos. No primeiro estágio, o político passa a abrir os horizontes, assumindo o primeiro mandato ou o primeiro cargo na administração pública. Vai se esmerando, aprimorando o perfil, amadurecendo. Começa a ser conhecido e reconhecido. Entra no segundo ciclo, quando o volume de seu prestígio se expande. Refina sua identidade, arruma o discurso, rearticula a simbologia, e passa a ser admirado. Ingressa no terceiro ciclo com certa fama e passa a ser respeitado. Agrega mais espaços, começa a alçar vôo no território da liderança política. Dessa forma, vai adensando o perfil, podendo fazer reivindicações e formar grupos próprios, desligando-se de antigos patrocinadores ou mesmo ganhando posições e postos maiores junto aos correligionários. Ao inaugurar o quarto estágio da carreira, é respeitado, reconhecido, com um poder admirável. Se faz da ambição desmesurada o batente para chegar rapidamente ao clímax, pode despencar e ser destruído. Esse é um dos principais desafios da vida política. Se é paciente, chega ao último estágio com muita firmeza.
Não há regra para se determinar o tempo razoável de cada ciclo. Tudo vai depender do cargo ou do tipo de mandato conseguido pelo político. Alguns são içados pela força de companheiros que os colocam sob suas asas. Ou são suplentes de senador ou vice-governadores, que, de repente, por circunstâncias políticas, ascendem ao posto de titular. Nesse caso, desfrutando de maior força, criam condições para subir rapidamente na escada da política. Outros possuem uma condição que, infelizmente, em nosso país, exerce atração fatal: grana. O poder do metal coopta, faz aumentar espaços, viabiliza candidaturas. É o preço que a democracia representativa paga ao território da política.
Dito isto, vale indagar: por que alguns políticos, mesmo tendo muito dinheiro, não conseguem se viabilizar? Essa é a questão central dessa reflexão. Política é a arte de comandar, de representar, de lutar, de costurar, de dialogar, de articular, de exercer o mando. Mas política é, sobretudo, a arte de saber dominar e administrar o tempo e as suas circunstâncias. Isso, dinheiro nenhum consegue. Há políticos loucos para queimar etapas do ciclo de vida. Alguns conseguem ter sucesso. Outros caem no fracasso. Quem é bem-sucedido mostra qualidades e valores como lealdade, companheirismo, coerência, determinação, simplicidade, engenhosidade no trato e na forma de fazer amigos, e, sobretudo, paciência. Os impacientes morrem antes de chegar à praia. E morrem porque gastam muita bala antes do último combate, desperdiçando energia antes das braçadas finais. Gozam as delícias do poder, antes de sentar na cadeira do mandato. Contam com o ovo, antes de a galinha botá-lo no mundo.
O tema é oportuno diante das investidas que os pré-candidatos de todos os Estados brasileiros começam a ensaiar nessa quadra política. Entre as perguntas que eles deveriam se fazer estão estas: em que ciclo de vida estou? Dá para pular alguma etapa? O dinheiro abrirá espaços? Com que grupos posso e devo contar? Chegou efetivamente minha hora ou dá para esperar mais um pouco?
As respostas poderão ajudar políticos a encontrar o eixo. E por falar em eixo, o senador Eduardo Suplicy, do PT, chegou a abandonar, no meio, a campanha para a Prefeitura de São Paulo, fugindo, por uma semana, para ‘‘encontrar o eixo’’ na mata da Serra da Cantareira, nas cercanias da capital. Perdeu para Paulo Maluf. Evidentemente, não era sua hora. Um político até pode perder campanha mais de uma vez. A derrota é a aprendizagem para a vitória seguinte. O que não é admissível a um político é improvisar.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político
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