O chamado do zabumba
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de junho de 1997
José Nêumanne 
Quem acompanhou o noticiário político dos últimos dias ficou com a impressão de que, na verdade, leu mesmo foi uma espécie de correio sentimental de adolescentes imberbes, e não um relatório dos problemas nacionais, tais como vistos por pessoas vividas e de larga experiência.
Voam, por exemplo, penas, e ressoa um cacarejar ululante no ninho tucano, desde que o presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu o ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf para uma conversinha particular. Gente adulta e séria não teria nenhum motivo para questionar o encontro, já que os dois são chefes políticos, se avizinha uma eleição e, mais importante do que isso, o interlocutor pode ajudar muito o presidente em sua tarefa de fazer aprovar as reformas constitucionais. Certamente mais do que o governador de São Paulo, Mário Covas, que sacode a plumagem eriçada, mas não deu uma só contribuição válida conhecida à aprovação das reformas, mesmo quando o interesse estadual foi espezinhado.
As velhas raposas do PSD mineiro já advertiam que a pior coisa em política é ciúme de homem, mas os arrufos dos tucanos ofendidos com a reaproximação entre FHC e Maluf não seriam levados a sério sequer em diários de adolescentes apaixonadas. Grave é o fato de a ciumeira inútil ser tratada como assunto sério e importante pelos meios de comunicação. E a fogueira de vaidades produziu tal calor que os líderes dos dois maiores partidos de sustentação do governo - o PSDB e o PFL - quase chegaram às vias de fato por causa da decisão dos governadores dos Estados do Amazonas, Amazonino Mendes, e do Acre, Orleir Carmeli, de não comparecerem à CPI que investiga a compra de votos a favor da reeleição para prestar esclarecimentos. Afinal, eles deram, ou não, R$ 200 mil a Ronivon Santiago e João Maia em troca de mais quatro anos de FHC?
Talvez para disputar em graça e leveza com os tucanos, o senador Ney Suassuna avisou à Nação que os assuntos de seu mais alto interesse, contidos nos substitutivos das reformas administrativa e previdenciária em discussão no Congresso, foram, por enquanto, adiados. Está chegando o dia em que o Estado brasileiro não suportará mais pagar a conta dos privilégios tornados dispositivos constitucionais pelo espírito perdulário do Parlamento pátrio, mas deputados e senadores nordestinos não conseguem resistir ao chamado do zabumba.
O estoque de gravatas que o senador Suassuna adquiriu na Disneylândia lhe permite o privilégio de não mudar de roupa, ao deixar o plenário para dançar o baião ao resfolego do fole no palanque com bandeirolas armado no Parque do Povo, em Campina Grande, Paraíba. Mas, de qualquer forma, ele ainda não tinha feito as malas, quando ficou sabendo que terá de voltar a Brasília em julho, pois o governo federal fez uma convocação extraordinária do Congresso para votar sabem o quê? É isso mesmo: as reformas. Ou seja, Suas Excelências vão ao forró e na volta acrescentam a suas contas bancárias a bagatela de R$ 16 mil para trabalhar nas férias, após terem pulado a fogueira, em vez de cumprirem o dever de votar as reformas no período dito útil.
O deputado Carlos Apolinário (PMDB-SP), que é devoto de São João Batista, mas não sabe dançar o xote, prefere estimular outra característica adolescente de seus colegas de profissão: o exibicionismo. Na condição de relator da nova lei eleitoral, ele arriscou propor uma esticadinha no horário político gratuito dos partidos e candidatos no rádio e televisão de uma hora e meia para duas horas e meia.
O pretexto do relator para esticar o tédio e o sacrifício imposto aos telespectadores e ouvintes de rádio do País apoiava-se na proposta paralela de reduzir a campanha de 60 para 45 dias. Ou seja, para adotar uma providência moderna, correta e civilizada, Sua Excelência pretendia radicalizar na outra, desconhecida em países onde a desfaçatez dos políticos não é tão grande. O eleitor agradece o tributo à própria paciência com a redução da duração da campanha, mas continua com todos os motivos para temer que, no fim das contas, mesmo tendo o relator recuado da proposta anunciada apressadamente, mais tempo de seu lazer seja invadido pelo lenga-lenga dos candidatos, sem sequer a contrapartida da diminuição do prazo. Afinal, a experiência só tem autorizado a desconfiança.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde, de São Paulo.


