A cena é comum. Sem dinheiro para quitar o débito, o tomador de empréstimo parte para a negociação. Como o credor conhece perfeitamente a condição de insolvência do ''freguês'', abusa nas exigências para aceitar a prorrogação. É o que acontece no Brasil neste momento em que a cotação do dólar perdeu contato com o mundo real. A diferença, aqui, é que credor e devedor no caso, os bancos e o governo brasileiro sabiam perfeitamente em que contexto se daria o resgate dos títulos cambiais: a menos de uma semana das eleições presidenciais.
Deu no que deu. Ontem foi mais um dia de roleta russa. Mal a sexta-feira financeira abriu e o câmbio entrou no ciclo nervoso que tem caracterizado o mercado brasileiro. Assim que foram iniciados os negócios, às 9h18, o dólar comercial já batia em R$ 3,84 para venda. No final do dia, cravou R$ 3,875.
O problema é que o mundo todo sabe: na próxima terça-feira, dia 1º, o governo federal deveria trocar US$ 1,25 bilhão em papéis da dívida cambial. Sem caixa para a operação, terá que esticar o vencimento. O prêmio que os investidores querem para aceitar o negócio começou a ser definido ontem e o tabuleiro foi, mais uma vez, o mercado cambial.
Já na última sexta-feira, as instituições financeiras pediram prêmio acima de 50% (além da variação cambial) para rolar os títulos. Diante da taxa escandalosa, o BC recusou as propostas. O resultado foi o dólar fechado a R$ 3,78 terça-feira passada. Sem conseguir uma boa recompensa para a rolagem, os ''investidores'', que financiam o governo brasileiro, manifestaram súbito desinteresse por ativos cambiais, inflando a demanda por papel moeda. É nestes momentos que os simples mortais assistem as cotações do dólar perderem o chão, em meio às mais esdrúxulas teses do que teria provocado a alta.
Ao contrário do que partidários do governo tentam fazer crer, a situação confortável de Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial guarda pouca relação com essa escalada cambial. Afinal, Lula não compra nem vende dólar, como tem dito o economista Delfim Netto.
O fato é que o real vai virando peso e o resultado na vida do brasileiro é trágico, com o encolhimento do crédito para as empresas, o desaquecimento da produção, o aumento do desemprego, a queda do poder aquisitivo, a retração econômica. Um ciclo vicioso com um só ganhador, o setor financeiro.
A Folha tem insistido neste ponto: o que tem feito o dólar explodir merece investigação rigorosa do Banco Central. Não se entende porque o governo Fernando Henrique Cardoso se omite sistematicamente do dever de identificar e punir os agiotas, que só produziram pobreza na última década.
Não é segredo para ninguém: vem mais tempestade cambial na segunda-feira. Como um negociador de primeira viagem, o Banco Central abre informações que seriam trunfos de negociação. Concentra as operações cambiais na mesma data e só falta anunciar em um megafone qual será o vencimento. Com isso, os nossos gentis credores precisam apenas forçar as cotações no dia certo, às vésperas do resgate, para fazer fortuna. Depois, assistimos na TV o ministro Pedro Malan, enérgico, criticando a ''ganância infecciosa'' que dirige o mercado financeiro.
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