Na noite de hoje, Fernando Henrique Cardoso poderá ir para a cama com uma dor de cabeça. Ele já terá tomado conhecimento do resultado das eleições em cinco territórios-chave do mapa político do País: São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. A dor de cabeça do presidente poderá ser forte ou fraca, mas irá persistir ao longo do mandato, aumentando as aflições de quem terá de passar o primeiro biênio cuidando das feridas econômicas provocadas pela crise financeira internacional.
A começar por São Paulo, uma vitória de Paulo Maluf será a primeira pedra no caminho do tabuleiro presidencial de 2002. Maluf fará o que for possível para chegar nas proximidades do pleito com um cacife potente. Com crise ou sem crise, procurará nadar nas águas de um populismo eleitoreiro, buscando em obras de grande visibilidade a química para ser arremetido como o cometa ‘‘fazedor’’ em direção ao Planalto.
Maluf já está dizendo que será candidato à reeleição. Quem o conhece sabe que é puro disfarce para encobrir o principal sonho de sua vida pública. Se ganhar, engrossará a corrente pepebista na Câmara com a cooptação de parlamentares e dará muito trabalho ao Governo. Covas, porém, passa Maluf e poderá ganhar. Se isso ocorrer, a dor de cabeça do presidente será menor, mas não desaparecerá. Todos sabem que o tucano paulista está zangado com o presidente e não deixará por menos. Uma derrota de Maluf engrossará o pefelismo nacional, pois ACM atrairá os pepebistas que perderão o poder de sua voz de comando nacional.
No Rio, uma vitória de Garotinho abriria uma fenda oposicionista num reduto estratégico, sendo visível a possibilidade de recair sobre ele uma candidatura presidencial das oposições, principalmente se realizar uma obra de vulto. A juventude, a disposição, a postura exuberante fariam brilhar seu perfil. Seria um bastião oposicionista no Sudeste apertando o cerco contra Fernando Henrique.
E se Olívio Dutra levar a melhor no Rio Grande do Sul, poder-se-ia apostar numa aliança tática entre PT e PDT para afinar a ponta do aríete destinado a arrombar o projeto situacionista de 2002. Mais suave e pragmático, com sua política de resultados, Cristóvam Buarque também poderá se constituir em peça importante no tabuleiro presidencial, caso venha a levar a melhor sobre Joaquim Roriz (PMDB), candidato com a marca do passado. Buarque identifica-se como a força equilibrada das oposições e, por isso mesmo, desponta como uma estrela ascendente. A se confirmar a tendência eleitoral de se buscar a moderação e afastar o radicalismo, o governador do DF estará no páreo dos presidenciáveis. Se Roriz ganhar, a força petista fica com o Rio Grande do Sul.
O perigo maior viria de Minas Gerais, onde um imprevisível e destemperado Itamar Franco, ganhando o Governo, poderá querer formar um arco nacional de alianças, costurando insatisfeitos, frustrados e desafetos do presidente tucano. Itamar continua a falar mal do presidente e Minas Gerais é um dos maiores colégios eleitorais do País. Um enclave oposicionista comandado por ele esquentará os ares do Planalto. Surge a questão: como o PMDB governista administrará Itamar? A resposta: procurando atraí-lo para o reduto situacionista com apoio e recursos. Será muito difícil governar um Estado como Minas sem vínculos efetivos com o governo federal. Se não der certo, sobrará para ele a saída do partido. O termômetro eleitoral indica que Fernando Henrique ganhará um cerco muito forte.
O adensamento da crise poderá conferir força ao presidente e aliviar a carga negativa dos opositores. Nesse caso, o pragmatismo político ditará as regras. Os estados ficarão reféns do poder central. Resta saber se a ambição política e o individualismo, que é a marca dos nossos representantes, serão contidos pelo sentimento cívico, necessário em momentos de turbulência e caos. Perigos virão de todos os lados, inclusive do ‘‘estouro da boiada’’, que será a corrida dos mais de 5 mil prefeitos, daqui a dois anos, rumo à reeleição.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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