Segundo os consultores políticos, os eruditos e os editorialistas, movendo-se para o centro e reivindicando este setor como próprio, os políticos contemporâneos têm quase garantida a eleição para um novo mandato, têm imprensa favorável e obtêm consideração pública, enquanto seu partido adquire nova força. De acordo com estas opiniões, Blair se moveu nessa direção com grande êxito. O mesmo, certamente, fez Clinton, depois de 1994, afirmam. Quanto a George W. Bush, supunha-se que também se moveria para o centro quando assumiu a presidência, mas, até agora, não o fez, o que custou aos republicanos a maioria no Senado, e por isso, talvez, o faça agora. Etcétera.

Vivemos na época de ouro do centrismo político, ou, pelo menos, assim parece. Mas, tudo isso é charlatanismo puro. O ''centro'' político é imaginário e sua exaltação como um lugar desejável para que seja ocupado pelos políticos é enganosa. Mais ainda: os políticos que buscam situar-se aí renunciam a toda aparência de liderança política. Segundo certo critério, o centro está onde costuma estar a maioria das pessoas, qualquer que sejam suas posições, apoiadas pelo mais amplo consenso. Embora, como Walter Lippmann o fez notar há 80 anos, a opinião pública seja amorfa e não esteja num local durante longo tempo. Permanecer no centro, com esta luz fraca, não é outra coisa que mudar ao ritmo das pesquisas.

Isso foi manejado com maestria por Blair, como ficou claro com a impressionante vitória do Partido Trabalhista britânico, em junho passado. Lembramos também que, em 1997, a Inglaterra estava, finalmente, cheia do darwinismo social de Margaret Thatcher, mas não por isso estava enamorada dos planos do Partido Trabalhista. Blair, inteligente, traçou as linhas de uma ''Terceira Via''. Deixou intacta a maioria do plano de orçamento dos conservadores, e instituiu um subsídio salarial para os trabalhadores de baixa renda, proclamado como um movimento para o centro. Em sua campanha deste ano, Blair prometeu gastar muito mais em serviços públicos como saúde e educação em resposta ao clamor dos britânicos nesse sentido. Desse modo, a pergunta é: moveu-se para os velhos programas trabalhistas ou para o novo centro?. Nem uma coisa nem outra. Ele apenas se inspirou no resultado das pesquisas.

Blair tomou timidamente Clinton como modelo? Mas, Clinton era um centrista? Tudo depende de quando e como se olha as coisas. Em setembro de 1993, quando Clinton lançou seu plano de assistência médica generalizada, uma pesquisa comprovou que 67% dos norte-americanos o apoiavam e apenas 20% eram contrários. Apenas cinco meses depois, esse plano estava liquidado, já que era amplamente condenado como radical. A subsequente tomada de controle do Congresso por parte dos republicanos foi atribuída, em parte, ao que se via como extremista nesse plano, que passou a simbolizar a suposta inclinação de Clinton para a esquerda nos dois primeiros anos de sua presidência. Clinton jamais voltou a mencionar esse plano.

O centro moveu-se para a direita? Não, exatamente. O plano de Clinton pareceu mover-se para a esquerda. Seus oponentes criaram um fantasma de governo intervencionista que usurpava as opções individuais e, assim, ganharam a guerra das relações públicas. Entretanto, o ideal do cuidado generalizado da saúde continuou sendo popular. Por sua vez, o corte gigante de impostos proposto por Bush só atraiu a maioria depois de ter sido aprovado. Durante meses, as pesquisas mostravam muito menos entusiasmo por esse corte do que por um fortalecimento da educação, ou por fazer com que a medicina esteja mais ao alcance de todos. Entretanto, os 12 senadores democratas que se uniram aos republicanos para retocar o corte de impostos, baixando-o de US$ 1,6 bilhão para US$ 1,3 bilhão, converteram-se nos ''centristas'' que ganharam a guerra.

O que estava mais perto do ''centro'', o plano de assistência médica de Clinton, originalmente apoiado por uma ampla maioria dos norte-americanos, mas, em definitivo, derrotado, ou o corte de impostos de Bush, ao qual inicialmente faltava apoio público, mas vitorioso no final? Esta é uma pergunta sem sentido. Julgar o centro político em razão de onde costuma situar-se o público é um exercício fútil.

O novo centrismo requer estar tão longe quanto possível de toda posição que provoque controvérsias. Isto é negativo, pois sugere que os políticos não têm um papel legítimo como líderes da sociedade, mas que são meros condutores. Os políticos não se atrevem a tomar posições fortes em temas controversos por medo de perderem a sua preciosa ''centralidade''. Mas, a essência da liderança consiste em enfocar a atenção pública em assuntos árduos que as pessoas querem mais é evitar. Mover-se para o centro implica, para os políticos, dar uma resposta aos desejos dos eleitores. Essa é uma resposta habitual para as legiões de estrategistas e pesquisadores de Washington, que ganham a vida respondendo a tais desejos. Mas esse dificilmente é o modo como deveria ser praticada a política numa democracia deliberativa.



- ROBERT REICH é professor universitário em Cambridge/Massachusetts (EUA) (IPS-Featurewell)

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