O centenário e o sesqui
Tanto o cinquentenário como o centenário do Paraná contaram com uma programação bem estruturada e elaborada com razoável antecedência. O governo Lerner despertou tardiamente para a celebração do sesquicentenário, embora tenha sido o gestor que mais apostou no espetáculo e nas promoções até hoje.
Não teremos, como se deu em 1953, aquele ativismo marcante mais de um congresso por dia nacional ou regional e até mundial que contou com o senso de antecipação que tornou viável os entendimentos que atraíram ao Paraná e especialmente a Curitiba tantos eventos de primeira grandeza. E o orgulho maior de todos era ouvir, diariamente, as proclamações de improviso de Bento Munhoz da Rocha Neto, o último grande orador que tivemos que dissecava aspectos sociológicos e históricos da saga paranaense. Teve inclusive que encarar com ''fair play'' uma contestação pública do jornalista Chateaubriand em meio a um banquete quanto às vocações da terra, com o senador nordestino insistindo que deveríamos nos transformar num Canadá com as florestas e não empolgar-se com a marcha cafeeira da agricultura de mineração.
REFAZENDO Teríamos muito a falar do novo Paraná, esse que consolidou a diversificação de sua economia e aderiu ao suposto vanguardismo, nem sempre com vantagens, da indústria de ponta como a automotiva, mais intensificadora de capital e tecnologia e notória poupadora de emprego, isso sem falar no defeito capital de apresentar níveis de nacionalização ridículos. É de esperar-se que a nova administração queira mostrar o lado perverso da estratégia do antecessor e empenhar-se até numa desmistificação dos seus alegados feitos. Isso, se feito com critério, é bom para a democracia até por mostrar que não temos mídia investigativa, capaz de detectar aquilo que poderia ser denunciado.
ADESÃO ACRÍTICA A sociedade não discutiu em momento algum as decisões de Lerner e tanto é verdade que olhou as justas restrições que partiam dos senadores Osmar Dias e Roberto Requião como desagregadoras e autofágicas. O alinhamento das classes conservadoras Associação Comercial, federações foi escandalosamente de adesão acrítica. Essa visão foi recuperada felizmente na hora da sangria máxima a da compulsão leiloeira em cima da Copel. Aí elas se reabilitaram e se renovaram no rigor com que denunciaram a manobra dos vândalos, dos safados e dos oportunistas.
Mesmo que não tenha um projeto já que assim não se pode denominar coisas vagas como volta do ''panela cheia'' ou distribuição gratuita de leite e mais água e luz a leite de pato para os pobres o desmonte ou a reengenharia podem até se justificar desde que não traduzidas em molecagens como o pretendido pelas alas mais selvagens do PMDB com o NovoMuseu. Uma anatomia nessa obra afrontosa já seria de grande valia, inclusive com a revisão dos processos de gestão herdados.
CRONOMETRISTA Além da ausência de um filósofo, uma das maiores carências, e que foi das mais sentidas quanto a escolha de valores, percebeu-se no governo Lerner a falta, sobretudo, de um cronometrista. O homem fica oito anos no governo, constrói 14 mil obras, não as inaugura e quando o faz contempla aquelas claramente inacabadas como o playground da ciência no Canguiri e os cinemas sem projetor e o museu sem acervo e muita vacuidade. Ninguém viajou tanto quanto Jaime Lerner e também essa oposição de fancaria foi incapaz de fazer um levantamento do custo-benefício desse turismo, nem sempre a serviço da administração pública.
Em taxa de corrupção, embora se reconheça que em muitos casos providenciou o seu esclarecimento (rombo no Banestado, a quadrilha dos 60% no ICMS), foi um dos governos mais vulneráveis que tivemos. Isso ficou patente no envolvimento de aliados políticos, importantíssimos, como Belinati de Londrina e Gianotto de Maringá. A despeito de tudo isso fecha seu período, acredito que o ciclo não esteja extinto, com Ibope elevado com 29% de bom e ótimo, recebendo prebendas várias do exterior, onde dá impressão de mais permanecer do que aqui nessa terrinha prosaica e medíocre.





