O caso Sercomtel
É consenso que o município de Londrina tem na Sercomtel uma das melhores prestadoras de serviços de telefonia do País e que não perde nada comparada com as melhores do mundo. Quando em 98 o Ministério das Comunicações determinou a divisão entre fixa e celular, isso não acarretou prejuízos financeiros e tampouco perda na qualidade dos serviços prestados à população, mesmo se incluindo o custo da separação. Ao contrário, gerou aperfeiçoamento nas operações técnicas e administrativas nas duas formas de exploração e favoreceu os usuários tanto na fixa quanto da celular.
O Brasil tem no mercado da telefonia um campo de investimentos altamente favorável. A situação em Londrina não é diferente. A aquisição da Global pela Telesp sinaliza a consistência do crescimento, aponta pela valorização e pode ser parâmetro para cálculo do valor da Sercomtel Celular S/A.
Para exemplificar, vamos projetar a demanda futura tomando como base apenas o número de eleitores na cidade (300 mil) e compará-lo com o número de aparelhos celulares já colocados (50 mil). Eleitores, obrigatoriamente são maiores de 16 anos e constituem-se em parâmetro básico para estratificar os potenciais compradores. Admitindo-se que 50% passem por usuários de telefone celular, o mercado cresce para 150 mil aparelhos celulares vendidos.
Mantida a proporção existente hoje, a Sercomtel Celular teria em torno de 70% deste crescimento e seu lucro líquido passa para mais de R$ 1 milhão por mês. Transformando em dividendos e repassados aos acionistas, a Prefeitura de Londrina pode utilizar sua parte, R$ 550 mil/mês, em investimentos.
Com este valor realiza-se uma obra por mês sem a necessidade de abrir mão do patrimônio gerador do lucro. Uma avaliação recente, feita por uma empresa americana, cotou a Sercomtel Celular em valores aproximados de R$ 200 milhões e a fixa em R$ 400 milhões, totalizando em R$ 600 milhões de patrimônio. A venda de parte da Sercomtel à Copel por R$ 186 milhões, se confirmada a avaliação agora de R$ 600 milhões, os mesmos 45% terão o valor de R$ 270 milhões e representam uma valorização superior ao capital investido em R$ 84 milhões em meados de dois anos.
Desta forma, mantidas e confirmadas as projeções de crescimento de mercado, a Celular poderá chegar ao valor em torno de R$ 300 milhões. Dividido na paridade das participações, R$ 135 milhões seriam da Copel e R$ 165 milhões da prefeitura de Londrina.
A Copel teria um resgate de 72% do investimento de capital feito quando da compra das ações da Sercomtel só com a venda da Celular e 45% a mais se computado sua participação na valorização das demais empresas incluída na Sercomtel Fixa. Comprova-se assim que, o negócio feito há dois anos foi bom para ambos: a Copel, com a valorização, obtém rapidamente o retorno de capital e prefeitura pôde operar e amortizar o déficit de orçamento que só no ano de 96, superou os R$ 4 milhões por mês, mais precisamente R$ 51,2 milhões no ano.
Desta forma, não há demérito algum em que o município venha a privatizar a Sercomtel. No entanto, não existe razão plausível nas alegações das autoridades administrativas quando da necessidade de vender rapidamente a Sercomtel Celular antes que acabe engolida pela concorrência ou venha sofrer desvalorização por perda de mercado. O ajuste fiscal teria que ser feito com outras receitas tributárias e corte de gastos públicos e não se desfazendo totalmente do patrimônio gerador de dividendos que tem na Sercomtel, como receita de capital.
Pareceres técnicos, por mais bem elaborados que sejam feitos, têm componentes emocionais e muitas das vezes outros contraditórios. Na realidade, em muitos casos são precedentes de vontade política que busca sustentações técnicas objetivando não declarar explicitamente outros interesses.
Para exemplificar, vale lembrar a desvalorização cambial ocorrida em 99, quando o governo pretendeu politicamente manter o real valorizado e o mercado por questões técnicas pedia o contrário. Aconteceu que o governo ficou refém do mercado que, de maneira selvagem, fez por si desvalorizando o real em mais de 80% para impedir a fuga de capitais do País.
Isto demonstra que pareceres técnicos viciados politicamente não se sustentam na prática. Assim sendo, manter a Sercomtel com o município no controle acionário, também não é demérito algum ao povo de Londrina.
- ISMAEL MOLOGNI é economista em Londrina





