O que me incomoda, neste affair Schering, é a unanimidade. Uma das frases célebres do nosso grande póstumo Nelson Rodrigues era que toda unanimidade é burra. Não sei se a generalização é permissível. Mas um outro grande, Bertrand Russell, também costumava dizer que o fato de milhões de pessoas pensarem a mesma besteira não transforma a besteira em genialidade. Claro que BR disse isso melhor do que estou repetindo - e em inglês, idioma de muito mais prestígio do que o nosso.
Municiado por tão eminentes referências, desde os meus tempos de criança (quando lia assiduamente, claro, um outro livre-pensador maravilhoso: Monteiro Lobato), sempre desconfiei daquelas coisas sobre que todo mundo parece concordar.
Quais são - ou parecem ser - os fatos?
Uma empresa farmacêutica multinacional - com matriz na Alemanha - é responsável pela fabricação e distribuição de uma quantidade indeterminada de medicamentos fora dos padrões de consumo. Mais exatamente, comprimidos de anovulatório foram fabricados com farinha de trigo no lugar das substâncias ativas e, em seguida, encontraram, de alguma forma, o caminho das prateleiras de diversas farmácias e chegaram às mãos das consumidoras - que, em consequência, estão diante do problema da gravidez indesejada.
Descoberto o desastre, o governo - através de seus órgãos fiscalizatórios - tomou duas iniciativas: (1) Multar o laboratório delinquente, pela importância máxima; e (2) Impedir a comercialização de seus produtos até que se proceda a uma ampla verificação na qualidade das mercadorias em estoque e dos processos de fabricação.
Não se consumou, felizmente, a votação, a toque de caixa - como queriam alguns políticos - de uma nova lei considerando ‘‘crime hediondo’’ a falsificação de remédios. As razões são de ordem legal - basicamente pela inconstitucionalidade da medida - mas não vêm ao caso, nesse momento.
Mas - à luz fria da razão - existem várias inconsistências e algumas aberrações, nessa tentativa de descrição linear dos fatos, que tanta indignação estão causando - ao povo e à imprensa.
Não creio haver sombra de dúvida quanto à inépcia com que esse grave assunto foi tratado pelos responsáveis, na empresa, no que se refere à comunicação. Se o erro já era do seu conhecimento, como parece, deviam ter agido com a rapidez e a sabedoria dos fabricantes de automóveis, que recolhem, a qualquer preço, os veículos com peças defeituosas - informando com clareza a sociedade. Os movimentos subsequentes também não parecem primar pela transparência e pela competência.
Mas não faz sentido - nem financeiro nem econômico - que uma indústria alemã centenária falsifique seus próprios produtos de forma tão grosseira. E logo anticoncepcionais, cujos efeitos podem ser medidos quase imediatamente. Não é uma questão de desonestidade, mas de inacreditável burrice - e, por isso mesmo, inacreditável.
Por outro lado, a ação fiscalizatória do governo, em praticamente todos os setores de sua atividade, tem sido, ao longo de toda a nossa história - desde os tempos da colônia, passando pelo império e pelas várias repúblicas - uma grande e continuada farsa. Todos sabem - os empresários e executivos tão bem como os jornalistas, os médicos, advogados e as donas de casa - que a tal ‘‘fiscalização’’ é predominantemente utilizada pelos agentes do governo como fonte de propinas e suborno, ou como instrumento de intimidação. Como e por quê a súbita regeneração?
Essas reflexões conduzem-nos mais próximo ao que considero como quadro mais verossímil da situação. Quem mais se beneficia com a ampla divulgação desses fatos - nos termos em que vem ocorrendo? Indiscutivelmente, é o próprio governo, que se encontra - imediatamente após uma Copa do Mundo emocionante - no limiar de uma campanha eleitoral que se prenuncia difícil, para reconduzir aos seus cargos boa parte dos governantes atuais. Isso dito e reconhecido, é urgente que a Schering e outras empresas - nacionais e estrangeiras - revejam seus controles de qualidade e profissionalizem seus departamentos de comunicação.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing/Rio de Janeiro

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