O caso McVeigh
A execução de Timothy McVeigh, de 33 anos, trouxe à tona, mais uma vez, a questão da validade ou não da pena de morte. McVeigh foi autor do atentado de Oklahoma City (o mais monstruoso ato terrorista ocorrido nos Estados Unidos, em 19 de abril de 1995), matando 168 pessoas, entre elas, 19 crianças.
Desde a decretação de sua sentença à morte, em 1997, McVeigh agiu com frieza e até arrogância, sem demonstrar arrependimento pelo que fez, o que ficou comprovado pelo poema de Wiliam Ernest Henley que distribuiu pouco antes de morrer, onde dizia: Sou o senhor do meu destino, sou o capitão de minha alma. Os versos escolhidos expressaram os sentimentos do réu minutos antes de ser executado com injeção letal.
A atenção nacional gerada pela execução de McVeigh diz o jornalista Paulo Sotero os relatos das testemunhas sobre seu comportamento calmo e altivo na câmara da morte e a maneira como ele manipulou a opinião pública nos últimos quatro anos para justificar o atentado com um ato legítimo na guerra pessoal que travava contra o governo dos EUA animou ontem vários eminentes opositores da pena capital a transformá-lo em mais um argumento em favor da abolição dessa forma extrema de castigo.
Na realidade, a execução de McVeigh, pelas componentes patológicas do episódio, acabou se tornando um suicídio assistido pelo Estado, concluiu Alan Dershowitz, professor da Escola de Direito de Harvard.
Há indivíduos que por razões das mais diversas e estranhas possíveis fazem uma opção pela morte e querem arrastar consigo outras pessoas. É um fenômeno de psicose aguda que provoca vítimas fatais e impasses circunstanciais de causar grande perplexidade.
McVeigh manipulou a opinião pública, foi ator de um triste espetáculo de autodestruição. Escolheu o dia em que ia morrer, salientou Dershowitz, graças a falhas do FBI na condução do processo. Na hora da execução, controlou a cena, não demonstrou nenhum remorso e deixou como declaração final um poema para dizer que morria como mestre de seu destino.
A pena capital executada no dia 11, teve tudo, menos o caráter de justiça, como afirmou o presidente George Bush, qualificado como executor em série por jornais europeus. Não se combate a violência com violência. O atual presidente norte-americano promoveu 152 execuções nos seis anos como governador do Texas. A de McVeigh é a primeira em nível federal, dos últimos 38 anos.
A pena de morte, em todos os sentidos não é a solução para a violência. Ela perde a essência do desafio pedagógico da ressocialização dos indivíduos, prioriza sentimentos de vingança, torna a sociedade mais vulnerável ao bateu-levou, ao invés de educar as pessoas para o diálogo, à tolerância, ao mútuo-respeito, ao perdão; enfim, àqueles valores humanos que dignificam a vida.
A pena de morte inverte o sentido original da condição de um penitenciário; que tem origem religiosa. Ele está recluso para se penitenciar e mudar de atitude. McVeigh deu assim um contratestemunho: morreu impenitente. Esta postura só pode agravar a violência, porque mostra frieza diante da fragilidade da vida; em suma, total desamor. O caso McVeigh emblematiza, assim, o nível de desumanidade do nosso tempo.
Não se acaba com os maus fazendo o mal a eles. Não se eliminam os homicídios matando os homicidas. Não se erradica o egoísmo assassinando os egoístas. Somente se constrói a conversão e a mudança das pessoas com uma potente dose de amor.
- VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e dirigente de instituição de ensino em São Caetano do Sul
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