O caso do Lago Igapó
Muitas cidades têm ícones, que podem sintetizar sua personalidade. Este é o status do Lago Igapó em Londrina. Por isso, seria previsível que uma intervenção nele geraria manifestações, de visões variadas, misturando a questão da identidade da cidade, preocupações ambientais e qualidade de vida, interesses pessoais, oportunismo político, até meras vaidades pessoais.
Parece-me oportuno lembrar Castoriadis, que dizia que não formular certas questões é extremamente perigoso, mais até do que deixar de responder às questões que já figuram na agenda oficial. Responder ao tipo errado de pergunta, frequentemente ajuda a desviar os olhos das questões realmente importantes. O preço do silêncio é pago na dura moeda corrente do sofrimento humano. Fazer as perguntas certas constitui, afinal, toda a diferença entre sina e destino, entre andar à deriva e viajar.
A minha contribuição para o assunto é fruto da minha condição de engenheiro, professor e pesquisador na área ambiental e ainda mais, como cidadão. Quero refletir ou dar elementos de reflexão sobre o que é substantivo e o que é adjetivo, essencial e assessório.
Vemos pessoas que desfrutam do Igapó exercitando-se, pescando, praticando esportes, passeando, observando a paisagem e alguns até se banhando. A vinculação com a qualidade de vida, felicidade e saúde é direta e daí podem decorrer vários elementos de análise. Uma água de má qualidade é um elemento de risco. E este fator leva ao questionamento de vários outros.
A contaminação por efluentes industriais. Parece que alguns colegas da UEL já detectaram contaminação por chumbo no Igapó 1. A contribuição por efluentes industriais é fácil de ser controlada, pois existe aparato legal e tecnologia. O mesmo vale para contribuições eventuais de esgotos domésticos clandestinos.
A contribuição da Sanepar. Por muitos anos a estação de tratamento de água da JK despejou o lodo dos decantadores e lavagem de filtros no Igapó. Sem dúvida contribuíram muito para o assoreamento. Atualmente enviam este lodo para a estação de tratamento de esgotos Sul. Alegam que não se furtam à responsabilidade, mas que por questões legais não podem participar com dinheiro, mas podem ajudar com máquinas no desassoreamento. Embora contendo alumínio, este lodo não é perigoso, haja vista que o alumínio é um elemento abundante no solo natural. Seu risco ambiental é infinitamente menor que o ocasionado pelo chumbo. Trata-se de negociar com a Sanepar um contrato que regulamente as responsabilidades. É até possível calcular o volume de sólidos totais despejado nestes anos todos.
A contribuição das águas pluviais. Todos se lembram da quantidade de sedimentos arrastados pelas águas pluviais quando foi aberta a Rua João Wolf. As águas continuam a carrear sedimentos, elementos poluentes e alta vazão de pico quando a bacia contribuinte é muito impermeabilizada. Hoje, conceitos modernos de drenagem urbana privilegiam as bacias de infiltração, pavimentos permeáveis e até pré-tratamento da água pluvial se o destino é um corpo receptor ambientalmente sensível. Estas alternativas retêm os poluentes e regularizam os picos de vazão, evitando enchentes. A questão é substantiva para o Igapó, mas não está sendo discutida.
Quanto à intervenção na barragem, é preciso lembrar que ela foi emergencial, motivada pelo risco de ruína. Em engenharia, é comum a existência de várias alternativas técnicas para um problema. Mas ao se esvaziar o lago, para o reparo, entraram em pauta outros assuntos que não estavam previstos e aí o município foi e continua a ser inábil na sua comunicação social.
Não conheço os detalhes técnicos do projeto, mas a proposta conceitual de se erigir uma nova barragem no lado do Igapó 2 é boa. A questão da forma da barragem, sua concavidade, é um problema técnico elementar, que poderia ser resolvido sem grandes alardes. O que fica de substantivo é que a proposta de nova barragem é boa, embora exija estudos técnicos mais aprofundados.
E surgiram outras propostas. Por exemplo, a da ONG Patrulha das Águas, que esteve no Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina expondo sua idéia de baixar o nível do Igapó 2. Não falo em nome do clube, mas numa análise preliminar, parece-me que baixar a cota ou aterrar partes do lago tem o mesmo efeito: diminuem o lago e deixam mais área de terra disponível. E existe um consenso de que não se deve diminuir mais o lago.
A democracia exige que haja discussão e que todas as idéias possam vir à luz e serem analisadas de forma crítica e construtiva. O arquiteto Humberto Yamaki tem contribuído neste ponto, tornando a discussão pública, com apoio do IAB e CREA. Resta também uma discussão sobre o uso do lago. O esvaziamento mostrou as margens solapadas pelas ondas provocadas pelo esporte náutico mecanizado. Será que não seria oportuna uma discussão também sobre o uso do lago?
Finalmente, uma menção ao secretário de Obras, engenheiro Luiz Carlos Bracarense. Conversei com ele muito brevemente e por uma única vez. Mas no meio técnico da engenharia, às vezes as reputações são conhecidas. Em sua passagem pela vida pública aqui e outras cidades, ele deixou marca de técnico competente e honesto. Não é justo que por problemas menores, de comunicação ou administrativos, denigra-se sua imagem e sua atuação profissional.
A nós, cidadãos, cujo único interesse é uma Londrina melhor, com mais qualidade de vida, cumpre a tarefa de trazer a discussão para seu eixo central, desarmar os espíritos, cobrar as responsabilidades e exigir intervenções de beneficiem o maior número possível de pessoas, ao menor custo.
- FERNANDO FERNANDES é egenheiro civil, presidente da Comissão de Meio Ambiente do CREA Paraná e professor universitário em Londrina





