Dentro do meio radiológico um dos exames que demonstra eficiência no diagnóstico de alguns tipos de patologias digestivas é o exame contrastado de esôfago, estômago e duodeno, mais conhecido no meio médico como EED. Para realização deste exame o elemento de contraste é o sulfato de bário, substância que apresenta duas características essenciais: excelente contrastatação aos raios X e não é absorvido pela circulação humana. Desta forma, consegue moldar, com certo grau de precisão, os contornos dos órgãos que estão sendo examinados, permitindo assim o diagnóstico de alterações importantes do trato digestivo.
O episódio recente envolvendo o sulfato de bário deixou a classe médica e os radiologistas em particular perplexos. Afinal, um medicamento antigo, tradicional, inócuo, utilizado de forma sistemática em algumas centenas de milhares de exames diários, causou sérios danos a alguns pacientes levando ao óbito 22 deles, 15 delas no estado de Goiás.
O carbonato de bário, substância tóxica encontrada no lote 3040068 do medicamento Celobar, já foi utilizado como matéria-prima na fabricação de veneno para ratos e defensivos agrícolas. O laudo definitivo do Instituto de Controle de Qualidade em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) comprovou a presença do elemento químico.
O sulfato de bário (composto ativo do Celobar) não é prejudicial à saúde. Na forma de carbonato, pode ser absorvido em ambientes com acidez inferior a 7, como o existente no estômago, tornando-se altamente tóxico e danoso ao organismo. Além do carbonato, o laudo apresentado pela Fiocruz indicou a presença de grande quantidade de sulfeto de bário, também prejudicial. Na verdade, todos os compostos de bário solúveis são venenosos quando ingeridos.
O bário tem propriedade estimulante muscular tóxica para o coração, podendo causar fibrilação ventricular (ritmo cardíaco acelerado e desordenado). Os sintomas de envenenamento com bário são salivação excessiva, tremores e convulsões, ritmo cardíaco acelerado, hipertensão, paralisia dos braços e das pernas, hemorragias internas e eventualmente a morte. Utiliza-se sulfato de sódio como antídoto para o envenenamento com bário, devido à capacidade de conversão do íon em sulfato de bário insolúvel e inofensivo.
Análise preliminar do Instituto de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) da Fiocruz detectou a presença de grande quantidade de carbonato de bário e sulfeto de bário nas amostras do lote nº 3040068 do medicamento Celobar Suspensão Oral. As substâncias são sais solúveis de bário que, absorvidas pelo organismo, podem causar intoxicação e até a morte. Infere-se portanto, o problema ocorreu devido a erros na manipulação do sal constituinte, sendo obtidas quantidades inadequadas de carbonato de bário em detrimento do desejado sulfato de bário, o primeiro com efeitos sabidamente danosos ao organismo humano e com diferenças fundamentais na contrastação radiológica e na sua capacidade de absorção pelo organismo humano.
Toda esta polêmica traz à tona a evidente fragilidade do sistema nacional de Vigilância Sanitária, que apesar da pronta resposta, não conseguiu evitar a morte destas 22 pessoas além de outras dezenas de pessoas intoxicadas de forma crônica e aguda. A apuração de responsabilidades, criteriosa, exigida inclusive pelo órgão máximo dos radiologistas no Brasil, o Colégio Brasileiro de Radiologia e pelo ministro da Saúde, dr. Humberto Costa, não deve se ater somente aos responsáveis pela fabricação, manipulação, distribuição e venda do produto, mas também nos setores de vigilância, teoricamente responsáveis pela liberação deste lote.
OMAR TAHA é médico radiologista em Londrina e membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia

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