Uma hecatombe. Esta é a sensação que se tem das perdas do ministro Sérgio Motta e do líder do governo na Câmara, deputado Luis Eduardo Magalhães. O primeiro era um craque na operação política e na arte da articulação. O segundo era exímio na estratégia de costurar apoios, segurar bases insatisfeitas e abrir as portas do Planalto. Serjão era fiador-patrocinador de campanhas majoritárias e proporcionais do PSDB nos estados. Sem ele, muitos candidatos ficarão órfãos. Luis Eduardo era a garantia de que o governo poderia contar com uma alavanca para aprovar as reformas. Alavanca manobrada por ele e seu pai ACM. Sem eles, Fernando Henrique, no curto prazo, fica sem a coluna vertebral do governo. Um corpo sem o esqueleto de sustentação.
As consequências serão imediatas. Não haverá clima psicológico para aprovar pontos polêmicos da reforma da Previdência. ACM, o maior entusiasta das reformas, não terá motivação para levar adiante qualquer projeto. Pelo menos no curto prazo. Fernando Henrique poderá até dizer que as reformas terão mais um motivo para ser aprovadas, pois o endosso do Parlamento seria uma homenagem aos amigos mortos. Pode ser. Mas os parlamentares, passados os primeiros momentos de comoção, tenderão a raciocinar como animais políticos. Querem o troco, ou seja, o cumprimento de compromissos, que estavam garantidos por Serjão e Luis Eduardo. Fernando Henrique, se quiser aprovar as reformas, terá de se deslocar para o balcão político e negociar os votos. Nesse momento pré-eleitoral, o preço do voto é maior, até porque há questões polêmicas, como os pontos da reforma da Previdência que retiram benefícios e vantagens.
Se for ele mesmo o negociador, o presidente estará arcando com um imenso risco. Será submetido à pressões monumentais, que eram enfrentadas com galhardia por Serjão e Luis Eduardo. Ficará desgastado e refém das circunstâncias. Uma das poucas pessoas em condições de assumir a árdua tarefa é Tasso Jereissati, que poderá ser, mais uma vez, convocado ao sacrifício. Se arranjarem um nome consensual para o governo do Ceará (Tasso é o grande favorito), ele deverá aceitar um convite do presidente. Afora Tasso, os outros têm cacife menor. Pimenta da Veiga não tem mandato e esteve afastado das grandes batalhas. Euclides Scalco deixou o PSDB. Mário Covas estará empenhado na batalha de São Paulo, e José Serra enfrentará os mosquitos, fungos e bactérias que assolam os brasileiros.
No PFL, o quadro é devastador. Morre a grande estrela do partido, de brilho próprio e ofuscante. Sai de cena o presidenciável de 2002. O PFL não terá alternativa que a de novamente se aliar ao PSDB. Ninguém veste as cores da modernidade. César Maia é um nome que pode subir, dependendo da capacidade de fugir do perfil regionalista. A morte de Sérgio Motta e Luis Eduardo nivela os grandes partidos, pois se apagam os dois grandes faróis da articulação política. Longas semanas de vácuo se passarão até que o carro, em ponto morto, entre na velocidade necessária para garantir a estabilidade do sistema político. Os episódios tristes que comovem a Nação servem para mostrar que a política não tem regras. E mais: a vida dos homens é um barquinho em mar revolto.

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