O campeão das vaias
Fiquei impressionado com o carinho que o povo de nossa cidade tem para com o governador do Estado e futuro candidato à Presidência da República. Corri ao aeroporto na última segunda-feira para recebê-lo, e nem precisava tanta pressa. Afinal, ele atrasou somente três preciosas horas que muito bem poderiam servir a uma atividade mais produtiva por parte de todos que ficaram lá esperando por aquele que já não nos visitava há mais de um ano.
Os professores compareceram em massa, munidos de balões coloridos e faixas de saudação ao homem que gastou R$ 4 milhões com a reforma do Colégio Marcelino Champanhat. Ops! R$ 4 milhões? Tudo isso? Não terá sido muito? Quem tem R$ 4 milhões para gastar numa reforma de prédio pode ser considerado, no mínimo, quatro vezes milionário e, portanto, em perfeitas condições de melhorar substancialmente o salário dos professores que está defasado há muito tempo. Terá sido por isso a enorme manifestação de carinho retribuída pelos seguranças com alguns safanões e até uma portada na cabeça de uma de nossas vereadoras mais queridas?
Não resta dúvidas de que o colégio ficou lindo! Parece novo! Mas e as outras escolas? Informei-me e soube que os prédios pré-moldados com quatro andares de uma escola particular da cidade custaram cerca de R$ 800 mil cada um, devidamente equipados com os móveis, quadros negros, palquinho para os professores, ventiladores e tudo mais que existe de conforto no mundo moderno. Com os milhões gastos pelo governador, dava para construir cinco prédios novos, e ainda equipá-los. Não descarto o valor histórico da construção em questão, mas penso que a obra custou absurdamente caro e, talvez por isso, pude perceber somente uma pessoa alegre durante a visita, que deve ser, no mínimo, o rico empreiteiro.
Essas manifestações de carinho observadas em Londrina deverão se reproduzir por outras regiões. Afinal, o governador tem mantido nossas estradas em ordem, pois os buracos aumentam a cada dia, ele está valorizando os professores, deixando-os em total estado de penúria, cumpre as reintegrações de posse de terras invadidas com somente dois anos de atraso, quando o fazendeiro já perdeu tudo, mandou investigar os desvios de dinheiro público ocorridos em nossa cidade na gestão passada com a mesma velocidade que em Maringá, onde os envolvidos já estão atrás das grades. Ele não tem sido um pai para os paranaenses? Não está cumprindo bem seu plano de governo?
Acompanhando a comitiva do governador, um verdadeiro séquito de gente ilustre. A intocável e insubstituível secretária estadual de Educação que nunca soube ter feito nada de bom para o ensino, e o bonachão que construiu a tal caravela do Descobrimento cinco séculos depois levando o País a um fiasco de proporções internacionais, pois nem nossos experientes almirantes da Marinha de Guerra conseguiram fazer com que ela navegasse em segurança até o local onde Cabral desembarcou, afundando quase que no próprio estaleiro onde foi construída. Tinha também o nosso jovem deputado estadual, que trabalhava na Comurb e estudava na UEL ao mesmo tempo, contrariando um princípio da Física de que um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Só gente de destaque que merece tantas vaias quanto o ilustre visitante.
Nosso povo está acordando a cada dia e esse pessoal que já devia estar sepultado do cenário político nacional está com seus dias contados. Afinal, dois anos passam rápido, e tenho certeza faremos melhores escolhas estaduais e nacionais tal como fizemos localmente. Vamos consertar nossa cidade com o novo prefeito, e que se cuidem aqueles políticos que só fazem atrapalhar o povo sério e bem-intencionado de nossa querida Londrina, pois daqui só levarão como manifestação de carinho as merecidas vaias de um povo indignado com o desmando e a falta de vergonha.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas, professor universitário, consultor e conselheiro de empresas em Londrina
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