Os principais males que afligem a nossa sociedade têm como raiz comum a predominância da cultura do egoísmo, do hedonismo e da insensibilidade diante do outro. A vaidade e a competição monopolizaram os ideais contemporâneos, numa guerra permanente entre egos infantilizados que veem o outro como objeto e obstáculo à concretização dos próprios desejos.
Como forma de mudar esse estado de coisas o filósofo John Rawls nos trouxe importantes contribuições fundamentadas no principio da empatia. De acordo com o autor, uma sociedade justa é aquela em que qualquer indivíduo aceitaria ser colocado de maneira aleatória em qualquer posição dentro do tecido social vigente – pobre, rico, negro, branco, homem, mulher, portador de deficiência ou não - sabendo que essa situação não ameaçaria a sua dignidade nem impediria a oportunidade de se desenvolver.
Para Rawls, a posição que ocupamos na sociedade é, em grande parte, determinada ao nascer, passando longe de talento, esforço ou mérito individual, como muitos querem fazer ver. O que nos livrou de nascermos numa família desestruturada ou num país sem oportunidades de ascensão social? Certamente, não foram aptidões especiais ou o esforço pessoal, mas fatores alheios ao nosso controle. Assim, quem nasceu numa situação privilegiada deveria refletir sobre a dívida social para com aqueles que não tiveram a mesma sorte, considerando que os piores lugares poderiam ser ocupados por qualquer um, inclusive por ele mesmo. A perspectiva do autor se aproxima da ideia de empatia e nos convida a elegê-la como vetor ético fundamental.
Para que a empatia se desenvolva, é necessário iniciar-se com o exercício do reconhecimento, ou seja, entrar em contato com a realidade do outro, torná-lo visível, despertar para a sua existência, seja em comunidades pobres, no meio de doentes, idosos, encarcerados, minorias raciais, portadores de deficiência ou populações excluídas. Só a sensibilidade poderá nos abrir para essa realidade e provocar a indignação necessária à mudança.
Após reconhecer a existência do outro, torná-lo visível, deve-se avançar para a dimensão do envolvimento, que só pode ser alcançado por meio do diálogo, do contato face a face, sem hierarquias ou preconceitos, buscando conhecer a história de vida e a razão das escolhas de cada um, a partir da sua perspectiva. O envolvimento com a realidade do outro evidencia as nossas similaridades, sejam angústias, limitações, carências, debilidades, medos e desejos, e revela que o que nos une é muito mais do que o que nos separa.
O terceiro elemento para o desenvolvimento da empatia é assumir a responsabilidade com o bem do outro, é se comprometer com as consequências de cada ação, é se conectar e fazer parte. Esse compromisso exige comprar brigas que a princípio não são nossas, num exercício de reciprocidade que conduz à verdadeira fraternidade, não como ação caritativa de fazer para, mas fazer como Leonardo Boff afirma que o ser humano é fundamentalmente um ser de cuidado, mais do que um ser de razão, o que se expressa na relação amorosa, se o outro sofre, nunca deixá-lo só, porque o pior do sofrimento não é o sofrimento em si, mas a solidão do sofrimento.
Assim, do movimento de reconhecimento, envolvimento e responsabilidade, nasce a empatia, infraestrutura necessária ao processo de humanização. A empatia é o exercício permanente de coexistência, pois não existimos sem o outro e é o outro que nos revela e aprimora como indivíduos, comunidade, sociedade e espécie. Mas o exercício da empatia exige renúncias, sacrifícios e constantes concessões, pois abre uma guerra contra o egocentrismo e o narcisismo que dominam o nosso tempo e impedem a percepção do outro como um ser autônomo, possuidor de direitos, atenção e cuidado. "Narciso acha feio o que não é espelho."

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