O caminho das Índias
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segunda-feira, 19 de maio de 1997
José Nêumanne 
Em seu austero, quase monástico, apartamento da Calle Maipu, em Buenos Aires, o poeta cego me iluminava ainda mais a manhã com seus comentários agudos, às vezes carregados de ternura, outras de sarcasmo. Ele me dizia que achava pouco inteligente ler textos desconhecidos, esperando encontrar algo de bom ou mesmo de novo. De repente, Jorge Luís Borges me disse: Eu, por exemplo, só releio. Principalmente Euclides da Cunha. No original. Admirei-me de o poeta portenho ler fluentemente em nossa língua. Mas eu não sei português, eu sei é Euclides, ensinou.
Para Borges, Euclides era, em si só, uma língua própria. Este ano, quando se recorda o centenário do episódio - a queda de Canudos - e da morte do protagonista - Antônio Conselheiro -, que inspiraram seu texto máximo, Os Sertões, ocorre-me que o prosador da História Universal da Infâmia teria gostado de ouvir a homenagem que o compositor baiano Gereba fez a ambos. Mais até talvez do que a releitura proposta no célebre romance A Guerra do Fim do Mundo, de Mário Vargas Llosa. Afinal, este ano também é celebrado o centenário do carioca Alfredo da Rocha Viana, Pixinguinha.
Acomodado nos bancos incômodos que Lina Bo Bardi desenhou para o teatro da fábrica tornada espaço cultural pelo SESC na Pompéia, possivelmente ocupando o assento ao lado com sua bengala, o contista de Ficções, testemunharia um raro encontro. Mesmo conhecendo Winston Geraldo, vulgo Gereba, desde os tempos do Grupo Bendegó, sua quase anônima sociedade com Capenga, a mim surpreendeu em sua obra recente a fusion feita por ele do chorinho urbano com as rurais modas de viola.
Nascido em Monte Santo, no sertão de Canudos, o cangaceiro de cara pálida produz uma melodia carregada de marcas ibéricas, brancas e sebastiânicas, adquiridas nas noites em que a Lua se banhava na Vaza-Barris, que matou a sede dos jagunços do Conselheiro e dos cabras de Corisco, o Diabo Louro. A gesta dos guerreiros do Bem e do Mal emerge da música dele e também, é claro, da poesia de João Bá, Patinhas, Ivanildo Vilanova e do Padre Enoque, ao lado dos quais tenho a honra de figurar.
Mas a vivência sonora de Gereba não se limita ao xaxado e ao xote da infância sertaneja. Profissional da noite, também acompanhou ao violão os cantores do grupo paulistano Trovadores Urbanos, em muitas serestas banhadas pelo luar metropolitano. Muitas vezes, para matar sua fome de retirante, recebeu o santo espírito do descendente de escravos que sempre honrou e representou a alma musical brasileira. O competente violeiro de Monte Santo incorporou, em todas aquelas serestas, a alma africana do flautista Pixinguinha, tornando-se quase um batuta a mais, o nono.
Aliás, ele não subiu ao palco do SESC Pompéia na base de um banquinho e um violão, não. A massa sonora, que compôs, arranjou e interpretou, saiu de sua reunião com mais nove instrumentistas, aos quais se incorpou a cada show dos três um convidado especial. Nos tempos atuais, este talvez seja um gesto de coragem sertaneja comparável ao enfrentamento das tropas republicanas de Moreira César pelos beatos guerrilheiros da Monarquia, que ensanguentaram o manto azul do Conselheiro.
O poeta portenho, quieto no banco da Bardi, ouviria um blues-tango de Piazzola soar como baião nos baixos mágicos da sanfona de um de seus convidados, Oswaldinho. Também travaria conhecimento, certamente perplexo, talvez maravilhado, com o casamento inusitado da seresta sertaneja do sertão de Cocorobó e de Jeremoabo com a sonoridade sutil de um instrumento persa, o santur, trazido da Espanha por Marcos Cazuza. Em sua homenagem à saga dos heróis de sua infância de pedra e pó e aos rapsodos que a cantaram, Gereba cruzou com Robertinho do Recife em encruzilhadas musicais próximas das trilhadas por George Harrison com os Beatles nos anos da revelação de 1960. Pois o guitarrista endiabrado de todos os frevos elétricos transformou Frevomulher num baião indiano (a definição é de Zuza Música nas Veias Homem de Melo), na antologia acústica que Zé Ramalho acaba de lançar.
Ao descortinarem pelos sons os caminhos que dão nas Índias e na Pérsia, que os navegadores de Sagres haviam descoberto pelos mares, a cítara de Robertinho do Recife (também na nova versão dançante de Avohai, de Zé Ramalho Neto) e o santur de Marcos Cazuza mostram de novo quão inecrutáveis são os veios da criação. Ali estão eles, expostos pelo talento teimoso de artistas que não acomodam na tradição nem se incomodam com a indiferença com que o mercado os trata.
É uma pena que a insensibilidade da indústria fonográfica, ao entulhar a programação das lojas com lixo cultural, evite o acesso do espírito do poeta portenho (e do distinto público brasileiro) ao inusitado e instigante caminho musical que leva o Eufrates e o Ganges ao Vaza-Barris, com as bênçãos de Mama África, a que pariu Chico César no Caicó arcaico.


