O câmbio e o gato
O câmbio e o gato
A posição do presidente do Banco Central do Brasil é, hoje, a mesma em que se encontrava Alice no País das Maravilhas diante do gato sorridente. Quando ela perguntou ao gato: Você pode me dizer como eu saio daqui? O gato respondeu: Depende para onde você quer ir! Ela disse Eu não sei para onde eu quero ir... O gato resmungou: Então, qualquer caminho serve... Alice insistiu: Mas sai em algum lugar? O gato sorridente encerrou a conversa: Se andar bastante, sai...
A questão hoje é saber como encontrar o caminho para escapar da armadilha do câmbio sobrevalorizado. Não se trata mais de discutir o nível da valorização. Já existe uma consciência generalizada a respeito. As exportações não crescem o suficiente para cobrir os gastos com as importações: em três anos estamos acumulando um déficit em conta corrente de 75 bilhões de dólares. Criou-se um constrangimento externo que impede a retomada do crescimento da economia.
Os resultados da estabilização são, infelizmente, diminuídos pelos custos decorrentes do baixo crescimento. Os efeitos favoráveis da melhor distribuição da renda - derivados da queda da inflação - estão sendo diluídos em razão do encolhimento da oferta de trabalho na indústria e na agricultura. É uma ilusão imaginar que os empregos formais que foram suprimidos nesses três anos têm uma contrapartida adequada, seja no setor de serviços, seja no mercado informal. Se algum dia compensados, já não o são mais.
Os grandes jornais do país estamparam esta semana a foto dramática de duas crianças maltrapilhas estendendo as mãos ao novo presidente do Banco Central à entrada do prédio do Senado, em Brasília. O flagrante bem mereceria uma legenda escrita por um poeta do porte de Fernando Pessoa: Dois pobres órfãos pedindo uma esmola... a um senhor incapaz de fingir a dor que não sente. Já um economista, menos insensível, talvez escrevesse: Na foto, a miséria pedindo ao câmbio para devolver o emprego ao seu pai.
Este é o grande problema que muitas pessoas estão começando a entender. A taxa de câmbio tem tudo a ver com a oferta de emprego em Brasília ou em Sorocaba, em Campinas, no Vale dos Sinos ou nas plantações por todo o interior do Brasil.
O Plano Real produziu resultados extraordinários no combate à inflação. Os preços se mantêm estáveis, ainda este mês convivemos com a menor taxa de inflação dos últimos 50 anos. Isso é altamente louvável. É preciso reconhecer, no entanto, que se cometeu um erro na política de câmbio que está impondo custos sociais absolutamente desnecessários, além de tornar a economia brasileira uma espécie de refém do mercado financeiro internacional. A excessiva valorização do real facilitou as importações que tiraram o emprego do tecelão em Sorocaba ou no Recife e do comerciário em Brasília. Ela desestimulou as exportações que poderiam estar gerando empregos para o metalúrgico do ABC, o artesão do Vale dos Sinos, o catador de algodão de São Paulo, do Paraná etc. Ao exportar menos e importar mais, a economia passou a depender do ingresso de recursos externos para cobrir o déficit em contas correntes. Para manter esse ingresso, somos obrigados a pagar taxas de juros escorchantes, o que inibe os investimentos, principalmente na indústria e na agricultura. A economia não cresce e não gera os empregos que deveria estar oferecendo.
Diante do crescente constrangimento externo, os economistas do governo se comportam como Alice no labirinto, pedindo conselhos ao gato sorridente do mercado financeiro: Se andar bastante, sai...
- ANTÔNIO DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, é deputado federal (PPB-SP)





