O calendário e a política - André Stumpf
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quinta-feira, 17 de dezembro de 1998
André Stumpf 
Este final de ano será diferente. O Congresso iniciou ontem um breve recesso e retomará suas atividades no dia 4 de janeiro. Os líderes esperam concluir a votação de todos os projetos e medidas provisórias que constituem o pacote do chamado ajuste fiscal do governo. Essa circunstância modifica muito o livre exercício das escolhas de novos ministros.
O governo Fernando Henrique está terminando de maneira também pouco usual. Assim como o ano legislativo só vai se encerrar em 31 de janeiro de 1999, o segundo governo FHC corre o sério risco de só se iniciar efetivamente em fevereiro do próximo ano. Ou seja, a política está atropelando o calendário. A necessidade de votar, no Senado e na Câmara, as medidas reclamadas pela área econômica faz com que as cautelas sejam redobradas.
Escolha de ministro é o exercício do poder em seu estado mais puro. É o momento em que a autoridade demonstra quem manda mesmo em todo o sistema. E revela a importância da sua caneta. Mas o presidente Fernando Henrique comanda uma aliança enorme, cheia de partidos e conveniências. Mexer com um significa provocar muita gente e inflar egos, desafiar vinganças e fazer emergir invejas abissais.
Os líderes do governo na Câmara e no Senado já disseram que preferem que o presidente Fernando Henrique Cardoso tome posse com a equipe atual, com quem trabalhou no primeiro mandato. Querem que FHC não faça nenhuma modificação no time. Se o fizer, as votações nas duas casas poderão ser seriamente afetadas - segundo se calcula. Mas, se não fizer, o novo governo começa com a face do antigo, do mesmo, sem mudanças. Uma confusão ocasionada pelo pacote de ajuste fiscal, pelas pressões externas, pelos investidores que querem consertar, em curtíssimo prazo, as mazelas da economia nacional.
Como as Bolsas despencaram mais uma vez na semana, e os índices das Bolsas, hoje em dia, medem a temperatura política, os líderes políticos, misturando os assuntos de economia com troca de governo e de ministros, trataram logo de afirmar, nos últimos dias, que o País ainda está sob risco. A situação não é boa, disse um deles, preocupado.
Enquanto isso, FHC pensa em quem vai convidar para seu primeiro escalão. O presidente já se fixou no nome de Euclides Scalco para secretário de governo, um articulador entre o Palácio e o Congresso. Scalco é um paranaense tranquilo, da turma de José Richa e Mário Covas. Organizado, detalhista, discreto, conhece muito bem o Congresso. Foi um deputado operante e hoje ocupa uma das diretorias da Itaipu Binacional. Coordenou a campanha da reeleição do presidente. É um nome que soma.
Outro nome que surge é o do deputado eleito João Pimenta da Veiga. Ele é um dos fundadores do PSDB, foi líder do governo na Câmara, escolhido por Tancredo Neves, prefeito de Belo Horizonte, estava longe da política desde que perdeu a eleição para o governo de Minas. O presidente Fernando Henrique gostaria de vê-lo na presidência do PSDB.
Mas a pressão para que não haja nenhuma modificação no Ministério continua forte. E, em sentido contrário, a pressão para que sejam anunciados logo os nomes que vão integrar o novo governo também continua forte. O presidente terá que se equilibrar entre os dois fogos.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília


