O cágado que não chegou à Lua - José Fernando da Silva
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de dezembro de 1998
José Fernando da Silva 
A ciência militar - sim, existe ciência ao se produzir morte em massa! - ensina que um homem, em bom estado físico, em uma hora, percorre cerca de 4 km a passo de estrada, ou seja, caminhando. Caso estimulado, correndo de um cachorro raivoso por exemplo, este homem pode levar pouco mais de 6 minutos para completar estes mesmos 4 km. Para obterem vitórias em campos de batalha, Júlio César e Napoleão, em suas respectivas épocas, sempre levaram em consideração estes números nos seus cálculos preliminares.
Mas, deixando de lado o campo militar, podemos afirmar que a história copia o comportamento do homem. Neste século findo houve décadas em que nós caminhamos a passo de estrada ou, dependendo do estímulo - a guerra fria, por exemplo - em frenética corrida. De todas talvez, a década de 60 foi uma das mais ricas em descobertas e feitos da nossa história recente.
Lembro-me em criança, olhos vidrados na televisão, a chegada do homem à Lua. Passei a noite a admirar nosso único satélite e escutando todos os prognósticos de felicidade eterna para a humanidade feitos a partir daquele momento em que o astronauta Armstrong deixou seu rastro impresso na areia lunar. Nada entendi quando uma vizinha, bem mais velha do que eu, disse que para os brasileiros, o máximo que poderia sobrar da Lua era a poesia. Não tínhamos capacidade de ter astronautas e muito menos um foguete para repetir o feito dos americanos, padecíamos de um certo nanismo científico e político. Trinta anos se passaram e tenho que dar razão à minha vizinha que, numa noite sem luar, foi levada por agentes da ditadura e nunca mais voltou.
Vieram as décadas subsequentes e nada dos prognósticos de 69 darem certo. A humanidade cresceu um pouco em tecnologia e volta e meia retorna à barbárie, com guerras, exploração e fome. Em 69, o mais tacanho dos futurólogos apontaria que no ano 2000 já estaríamos a visitar outros planetas ou até mesmo outro sistema. Puro entusiasmo de momento, pois não conseguimos mais do que algumas fotos de orbes próximos enviadas por sondas.
Os adivinhos daquela época ignoravam algumas barreiras físicas do homem, como a incapacidade de se viver em gravidade zero por muito tempo. De tal modo também ignoravam os limites impostos pelas teorias da Relatividade Restrita e Geral propostas pelo físico alemão Albert Einstein nas primeiras décadas deste século. Como exigir de homens formados no pensamento newtoniano e construídos na geometria de Euclides o entendimento de que a distância mais curta entre dois pontos é uma curva e que tudo está limitado na velocidade da luz?
Por isso, o mundo do final deste século foi pensado de forma diversa à existente até mesmo pelos cientistas e, principalmente, escritores. Tínhamos a fusão e a fissão nuclear para impulsionar nossas futuras naves. Uma possibilidade imensurável de se produzir energia através da antimatéria, descrita por Dirac em 32. Éramos infinitos em pensamento e possibilidades.
Nos anos 80 descobriu-se que a ciência, principalmente a da guerra, estava cada vez mais cara e cada vez descobrindo menos. O negócio seria então os países desenvolvidos gastarem pouco em novos engenhos científicos. Por sorte de quem não queria gastar tanto com ciência, o socialismo soviético sucumbiu. Resultado, o mundo dos Jetsons, cheio de conforto e máquinas que fariam tudo, foi adiado por pelo menos mais 50 anos.
Hoje vejo os prognósticos dos cientistas brasileiros para os próximos anos e fico perplexo. Continuaremos na idade da pedra cientificamente. Pouco avançaremos. Faltam recursos. A universidade está sucateada e os poucos que se aventuram em fazer ciência neste País podem ser chamados de verdadeiros abnegados. Se pode ficar pior, pior ficará.
Na ânsia de sangrar os cofres públicos para encher de dinheiro os agiotas internacionais e ao FMI, o governo federal promete encurtar ainda mais o já curto cobertor dos recursos para nossa ciência. As conclusões daí retiradas são simples: se éramos raquíticos cientificamente em 69, estamos condenados a desaparecer em conhecimento ad vitam aeternam; se a ciência mundial anda a passo de estrada por falta de estímulos (leia-se investimentos), a nossa caminha a passo de cágado.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


