O café do Paraná - Francisco Galli
Francisco Galli
A nova cafeicultura do Paraná, implantada com base em um novo modelo tecnológico de produção, está consolidada e tem o reconhecimento da comunidade técnica e de produtores de outros Estados, como foi possível constatar no 1º Encontro Nacional dos Cafés do Brasil, realizado dia 28 de janeiro em Belo Horizonte. Mais do que isto, os dados da primeira etapa desse grande projeto são expressivos e não deixam dúvida. A produtividade média do café adensado na última safra foi de 47 sacas/ha de café beneficiado contra apenas 17 sacas/ha nas lavouras tradicionais.
A eficácia do modelo também se expressa nos fatores sanidade e qualidade e redução de custos, vantagens intrínsecas do sistema adensado. Estamos no rumo certo do ponto de vista agrícola e agronômico. Sob o ponto de vista da indústria e do consumo, estamos correspondendo à expectativa de quem aprecia paladar, aroma e sabor da bebida.
No Encontro de Belo Horizonte, cada um se esmerou em apresentar seus cafés da melhor maneira possível, participou em condições de igualdade e marcou presença oferecendo mais um dos bons cafés do Brasil.
A etapa a ser perseguida agora é a da rentabilidade. O diferencial de preços isso é a justa premiação à competência e o retorno do capital investido não pode depender apenas da boa condução da lavoura, isso é das atividades ditas da porteira para dentro. Nem do reconhecimento isolado de poucas indústrias igualmente voltadas para a qualidade, formadoras de nichos de mercado. Isso retarda o processo evolutivo desencadeado pelas instituições empenhadas no Projeto Café Qualidade Paraná. Daqui para frente, as variáveis comercialização e política de governo precisam ser trabalhadas e incorporadas ao projeto, dando o tom à verdadeira concepção de cadeia produtiva em que todos os segmentos (elos) são interdependentes.
Sem o compromisso explícito dos setores industrial (enquanto agente de qualidade e mercado) e governamental (enquanto gestor da política de cafeeira), todo esforço despendido pela ponta da produção, através das instituições envolvidas, fica comprometido e não converte os resultados esperados. Ainda que os avanços conquistados até aqui, e que impressionaram positivamente a exigente massa crítica reunida em BH, sejam um bom incentivo moral. Ainda que todos nós da produção nos empolguemos com os resultados altamente positivos, mas que dizem respeito apenas a um segmento, o do campo.
Questionamento ao papel do governo: adianta investir em capacitação e tecnologia para obter qualidade, se os critérios de ofertar cafés dos estoques do governo os leilões destoam completamente das expectativas e curso normal do mercado?
Quanto ao papel da indústria: será que o café diferenciado, de qualidade precisa, primeiro, buscar o reconhecimento do mercado externo? Até quando os bons cafés do Paraná viram café de Minas ou da Mogiana, após entrar no mercado? É necessário que a indústria do Paraná entre com ações concretas no sentido de valorizar a Qualidade Paraná e que esta valorização seja partilhada com o produtor para que ele continue estimulado a garantir a oferta de um produto diferenciado no mercado.
A quem interessa uma cafeicultura forte, distribuidora de renda no interior, na geração de emprego no campo e na cidade, no recolhimento de impostos ou na conversão de divisas? A todos. O estágio que o Paraná conseguiu com o sistema adensado que hoje tem notoriedade e reconhecimento nacional deve, agora, ser feito com a qualidade, mas com o compromisso de todos.
É fundamental trabalhar os pontos de estrangulamento do setor de exportação de tal forma que o café aqui produzido saia como café do Paraná, que tenha identidade própria e o valor real de sua qualidade. Revertendo a (falsa) imagem de que aqui não se produz café de qualidade.
Se queremos mostrar isto ao País e ao mundo e colher e ditribuir os benefícios. Então, que cada um cumpra o seu papel de agente da cadeia produtiva.





