Os importadores mundiais de produtos alimentares, destacadamente dos países mais evoluídos, estão cada vez mais exigentes quanto à qualidade, mas não apenas isso: em meio ao comércio ainda selvagem de escala, que visa primordialmente o lucro, robustece-se a tendência de saber como esses alimentos são produzidos e em que condições. Fatores como preservação ambiental e ausência de trabalho escravo ou infantil são fundamentais, porque afora a exigência de qualidade e segurança alimentar por via da exclusão dos agrotóxicos um número cada vez maior de consumidores já não deseja servir-se de produtos ''contaminados'' por aqueles males.
A busca, pelo consumidor, de conhecer a natureza dos produtos que irá ingerir, abrange também esses requisitos, e outros mais, como o denominado ''mercado solidário de comércio justo'', a preferência por produção de pequenos proprietários ou da denominada agricultura familiar, e a ausência de intermediários, que são os maiores beneficiados com os ganhos. Há a presença de uma ideologia preservacionista e humanitária envolvendo esse projeto. É dentro desse conceito que se insere o café de Lerroville, que empresários franceses passarão a importar, a partir de abril. O assunto está em reportagem de ontem deste jornal.
Lerroville é um distrito agrícola de Londrina que, havendo descoberto a fórmula, passou a produzir esse café de alta qualidade, eliminando todas aquelas barreiras impeditivas. Depois do longo caminho andado desde que um projeto nesse sentido lhes foi apresentado, 45 produtores daquela localidade organizaram-se em duas associações e agora já estão aptos a enviar mil sacas do produto para a cidade francesa de Saint-Etienne, recebendo três vezes mais, ou seja, 120 euros por saca ou R$ 438.
Os compradores, representados pela organização não governamental Monde Diplomatique, não irão necessariamente pagar mais do que pagariam por um congênere, mas é o produtor que será beneficiado pelo fato de eliminar os venenos agrícolas e o atravessador da comercialização que no Brasil costuma ficar com a parte do leão. A prática adotada em Lerroville não é nova em nosso país, já existindo com relaçao a outros segmentos agrícolas, porém não os de produção e exportação em escala. O fato alvissareiro é que o experimento está dando certo e entusiasmando os cafeicultores dessa região, todos pequenos produtores.
Eles não estão sós, porque contam com o respaldo técnico do Instituto Agronômico do Paraná, do Instituto Ambiental do Paraná, das Secretarias de Agricultura do Estado e do município de Londrina, da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural-Emater e do Instituto Maytenus (que faz a certificação de qualidade). Afora todos os inúmeros benefícios que proporciona, esse projeto está criando entre os produtores uma nova consciência acerca de organização em grupo, necessidade da cooperação técnica, aumento da produtividade, preservação ambiental, abolição do trabalho de crianças e a necessidade de produzir com qualidade, não só para obter mais ganhos mas principalmente evitar danos à saúde do consumidor.

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