O buraco é mais embaixo René Ruschel
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segunda-feira, 10 de novembro de 2003
René Ruschel 
Quando a gente imagina que já viu de tudo em Pindorama surge alguma novidade para mostrar que a coisa sempre pode ficar pior. Ou melhor, que está pior. Esta diástole de imoralidade se arrasta por mais de cinco séculos e enumerar todos os escândalos é uma missão impossível. A bola da vez é a máfia paulistana composta por juízes, empresários, advogados, delegados e agentes da Policia Federal acusados de montar uma rede criminosa de tráfico de influência, lavagem de dinheiro, contrabando e venda de sentenças. Justamente aqueles de deveriam ser os guardiões da lei.
Aqui no Paraná, um juiz acatou o pedido da CPI instaurada pela Assembléia Legislativa para que seja feita a exumação do corpo de um ex-secretário de Estado no governo Jaime Lerner. Há quem diga que sua morte foi forjada para esconder um escândalo de milhões de dólares no Banestado Leasing. Sem mencionar a outra CPI, na Câmara dos Deputados, que apura a evasão de mais de US$ 30 bilhões pela agência do banco Banestado, em Nova York. Para se ter uma idéia do que representa este valor, a renegociação do Brasil com o FMI para 2004 prevê um acordo de US$ 14 bilhões, ou seja, menos que a metade do que foi desviado por alguns poucos canalhas.
Ante um cenário como este a pergunta que assola a consciência de milhões de brasileiros é: o Brasil tem jeito? Certamente que numa resolução simplista a quase unanimidade irá dizer que não. Mas e a saída, onde está a saída? Além da clássica resposta que diz ser os aeroportos do Galeão ou Cumbica, com a lembrança que o ''último a deixar o país, apague as luzes'', a única fórmula capaz de minimizar esta chaga social é uma profunda transformação nos valores éticos da sociedade verde-amarela. Mas este processo é longo, lento e gradual; uma tarefa para gerações e gerações. Se a corrupção não é um privilégio tupiniquim mas uma mazela arraigada em todas as instâncias do poder, seja qual for a nação, por estas plagas ela tem uma conotação típica do mundo subdesenvolvido chamada impunidade. Pois é aí que mora o perigo.
Nos últimos vinte ou trinta anos não se conhece, no Brasil, um único caso de corrupção contra o erário público cujos culpados tenham sido punidos. Banqueiros, políticos, empresários, profissionais liberais, servidores públicos graduados de todos os poderes, ninguém jamais foi preso por estelionato. No máximo, alguns de menor calibre foram afastados. Num dos maiores escândalos na década passada, conhecido como os ''anões do orçamento'', um parlamentar baiano teve a desfaçatez de afirmar que todo seu patrimônio se devia ao fato de ter ganhado mais ''de duzentas vezes na loteria''.
Os envolvidos renunciaram aos seus mandatos para não perder os direitos políticos e alguns acabaram voltando ao Congresso pelo voto direto. Neste caso, convenhamos, os eleitores têm uma grande parcela de contribuição, afinal, quem retornou o fez pelo voto popular. Por que não eliminá-los da vida pública? Amiúde, o poder - independente da dimensão, da esfera, da condição pública ou privada - corrompe os homens e corrói as instituições, enquanto a sociedade permanece passiva.
A propósito, o ex-deputado Eurico Miranda, que responde a vários processos por improbidade administrativa e enriquecimento ilícito, foi reeleito presidente do Vasco da Gama. Dá pra acreditar?
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


